“
Mas e o amor? O que é senão um monte de gostar? Gostar de falar, gostar de tocar, gostar de cheirar, gostar de ouvir, gostar de olhar. Gostar de se abandonar no outro. O amor não passa de um gostar de muitos verbos ao mesmo tempo.
”
”
Carla Madeira (Tudo é rio)
“
Quem não compreende um olhar,
tampouco compreenderá uma longa explicação
”
”
Mario Quintana
“
A vida foge-nos, escapasse-nos como água entre os dedos. Morremos a cada respiração, a cada palavra, a cada olhar, momento a momento encurta-se a distância que nos separa do nosso fim, nascemos e já estamos condenados à morte. A vida é breve, não passa de um instante fugaz de um brilho efémero nas trevas da eternidade
”
”
José Rodrigues dos Santos (A Filha do Capitão)
“
Os pássaros ficavam encolhidos a um canto, tentando evitar olhar para aquela porta aberta, desviavam os olhos da liberdade, que é uma das portas mais assustadoras. Só se sentiam livres dentro de uma prisão.
”
”
Afonso Cruz (A Boneca de Kokoschka)
“
Há muitas formas de estar morto.
Perder o cheiro, perder o nome, perder a própria vida, mesmo que ainda ocupando um corpo ou uma sombra. Perder o cheiro, perder o nome, perder a própria vida, mesmo que ainda suportando o tempo e o peso do olhar.
”
”
José Luís Peixoto (Galveias)
“
«Penso: talvez o céu seja um mar grande de água doce e talvez a gente não ande debaixo do céu mas em cima dele; talvez a gente veja as coisas ao contrário e a terra seja como um céu e quando a gente morre, quando a gente morre, talvez a gente caia e se afunde no céu.»
”
”
José Luís Peixoto (Nenhum Olhar)
“
Enquanto falava, lançou em direção à menina um olhar estranho, de ódio – a não ser que tivesse um conjunto muito singular de músculos faciais que, diferente do que sucede às outras pessoas, não sabia interpretar a linguagem da alma.
”
”
Emily Brontë (Wuthering Heights)
“
colava o seu belo seio contra o peito dele; as suas mãos corriam-lhe os braços numa carícia lenta e quente, dos pulsos aos ombros; depois, com um lindo olhar, estendia-lhe os lábios. Pedro colhia neles um longo beijo, e ficava consolado de tudo
”
”
Eça de Queirós (Os Maias)
“
Uma relação de duas pessoas converteu-se numa de três, numa coisa mais triangular. Só uma relação que consegue formar um polígono consegue sobreviver, pensava Borja. Quando assenta em dois pontos, não resiste ao tempo, é um segmento de recta muito frágil. É um pontinho a olhar para outro pontinho, não tem a solidez do triângulo e, muito menos, da circunferência. Parte-se como um palito.
”
”
Afonso Cruz (Jesus Cristo Bebia Cerveja)
“
Meus dias são sempre como uma véspera de partida. Movimento-me entre as pontas como quem sabe que daqui a pouco já não vai estar presente. As malas estão prontas, as despedidas foram feitas. Caminhando de um lado para outro na plataforma da estação, só me resta olhar as coisas lerdo e torvo, sem nenhuma emoção, nenhuma vontade de ficar.
”
”
Caio Fernando Abreu (Morangos mofados)
“
Qualquer um pode olhar para você, mas é muito raro encontrar quem veja o mesmo mundo que o seu.
”
”
John Green (Turtles All the Way Down)
“
Não tem um olhar para mim: coisa cruel; um olhar terno ter-me-ia tornado feliz até amanhã de manhã. Esse olhar, não quis ele conceder-mo; foi-se embora. É estranho que a dor quase me sufoque por o olhar de um ser humano não ter encontrado o meu.
”
”
Charlotte Brontë
“
Ele virou-se para a olhar de frente e os seus olhos encontraram-se de um modo que tinha tudo que ver com amor, do tipo suficientemente forte para arrancar alguém da sepultura, do tipo de nunca esmorecer e nunca falhar
”
”
Eloisa James (When Beauty Tamed the Beast (Fairy Tales, #2))
“
Isabella Swan?- e olhou-me através das pestanas extremamente longas, com um olhar doirado suave, mas de algum modo ainda incandescente.-Prometo amar-te para sempre, todos os dias da eternidade. Aceitas casar comigo?
Havia muitas coisas que gostava de lhe dizer, muitas delas pouco simpáticas e outras tão lamechas e românticas que ele provavelmente nem sequer sonhara que eu seria capaz de as dizer. Em vez de me envergonhar com qualquer uma, murmurei:
- Sim
”
”
Stephenie Meyer (Eclipse (The Twilight Saga, #3))
“
Há um estranho aforismo de Kafka que diz: «Os leopardos invadem o templo e bebem o conteúdo dos vasos sacrificiais, esvaziando-os; isto repete-se incessantemente; por fim, esta situação pode calcular-se de antemão e torna-se uma parte da cerimónia». O que é descrito ali acontece a todos os que, por descuido ou insensatez, se deixam transformar em adultos: a força do hábito endurece o olhar, e a rotina torna normal o que em tempos era horrível. Só as crianças (e os loucos, e os humoristas) conservam a capacidade de dizer que o que é selvagem continua a ser selvagem, mesmo que tenha passado a integrar o ritual sagrado”.
”
”
Ricardo Araújo Pereira (A doença, o sofrimento e a morte entram num bar: Uma espécie de manual de escrita humorística)
“
(...)
e nunca me disseram o nome daquele oceano
esperei sentada à porta... dantes escrevia cartas
punha-me a olhar a risca do mar ao fundo da rua
assim envelheci... acreditando que algum homem ao passar
se espantasse com a minha solidão.
(anos mais tarde, recordo agora, cresceu-me uma pérola no coração. mas estou só, muito só, não tenho a quem a deixar.)
um dia houve
que nunca mais avistei cidades crepusculares
e os barcos deixaram de fazer escala à minha porta
inclino-me de novo para o pano deste século
recomeço a bordar ou a dormir
tanto faz
sempre tive dúvidas que alguma vez me visite a felicidade
”
”
Al Berto (O Último Coração do Sonho)
“
Um homem da aldeia de Neguá, no litoral da Colômbia, conseguiu subir ao céu.
Quando voltou contou que tinha contemplado, lá do alto, a vida humana. E disse que somos um mar de fogueirinhas.
- O mundo é isso - revelou - Um montão de gente, um mar de fogueirinhas.
Cada pessoa brilha com luz própria entre todas as outras. Não existem duas fogueiras iguais. Existem fogueiras grandes e fogueiras pequenas e fogueiras de todas as cores. Existe gente de fogo sereno, que nem percebe o vento, e gente de fogo louco, que enche o ar de chispas. Alguns fogos, fogos bobos, não alumiam nem queimam; mas outros incendeiam a vida com tamanha vontade que é impossível olhar para eles sem pestanejar, e quem chegar perto pega fogo.
”
”
Eduardo Galeano (The Book of Embraces)
“
Quando eu olhar a noite enorme do Equador, pensarei se tudo isso foi um encontro ou uma despedida.
”
”
Caio Fernando Abreu (Morangos mofados)
“
Aconteceu outra vez. Um daqueles momentos em que o pulso se lhe acelerou e em que ela parecia esquecer o resto do mundo só porque ele estava a olhar para si.
”
”
Emma Wildes (Our Wicked Mistake (Notorious Bachelors, #2))
“
Sigo com um olhar e concordo com um menear, apoio com um dispor e celebro com um sorriso.
”
”
Filipe Russo (Caro Jovem Adulto)
“
Já não há histórias de amor. No entanto, as mulheres desejam-nas e os homens também, quando não se envergonham de ser ternos e tristes como as mulheres. Uns e outros têm pressa de ganhar e de morrer. Apanham aviões, comboios suburbanos, rápidos de alta velocidade, ligações. Não têm tempo para olhar para aquela acácia cor-de-rosa que estende os ramos para as nuvens intervaladas de seda azul ensolarada (…) Bem se vê que não há tempo sem amor. O tempo é amor pelas pequenas coisas, pelos sonhos, pelos desejos. Não temos tempo porque não temos amor suficiente. Perdemos o nosso tempo quando não amamos. Esquecemos o tempo passado quando nada temos a dizer a ninguém. Ou então estamos prisioneiros de um tempo falso que não passa.
”
”
Julia Kristeva (Os samurais)
“
Sabia que não ia voltar mas continuava pensando com tanta força. Como quando se tira um vestido velho do baú, um vestido que não é para usar, só para olhar. Só para ver como ele era. Depois a gente dobra de novo e guarda mas não se cogita em jogar fora ou dar. Acho que saudade é isso.
”
”
Lygia Fagundes Telles (As Meninas)
“
Talvez espante ao leitor a franqueza com que lhe exponho e realço a minha mediocridade; advirta que a franqueza é a primeira virtude de um defunto. Na vida, o olhar da opinião, o contraste dos interesses, a luta das cobiças obrigam a gente a calar os trapos velhos, a disfarçar os rasgões e os remendos, a não estender ao mundo as revelações que faz à consciência; e o melhor da obrigação é quando, à força de embaçar os outros, embaça-se um homem a si mesmo, porque em tal caso poupa-se o vexame, que é uma sensação penosa, e a hipocrisia, que é um vício hediondo. Mas, na morte, que diferença! Que desabafo! Que liberdade! Como a gente pode sacudir fora a capa, deitar ao fosso as lentejoulas, despregar-se, despintar-se, desafeitar-se, confessar lisamente o que foi e o que deixou de ser!
”
”
Machado de Assis (Memórias Póstumas de Brás Cubas)
“
...e por um instante pensei que não havia ali mais fantasmas que os da ausência e da perda,e que aquela luz que me sorria era de empréstimo e só valia enquanto a pudesse segurar com o olhar,segundo a segundo.
”
”
Carlos Ruiz Zafón (The Shadow of the Wind (The Cemetery of Forgotten Books, #1))
“
O olhar de Cal corre de um lado para o outro em busca de uma solução que ele jamais vai encontrar. Por fim, seus olhos pousam em mim. Estão vazios. E sozinhos. É então que uma mão se fecha delicadamente ao redor do meu punho.
”
”
Victoria Aveyard (Glass Sword (Red Queen, #2))
“
Mas a lista das perdas era também uma lista de compras. Não eram as histórias e as palavras e as músicas o que eu havia perdido. Eu havia perdido essa minha identidade que formulava, sem cessar, histórias, palavras e músicas a seu próprio respeito. Eu tinha ficado menor, menos interessante. E precisava comprar um olhar com que eu pudesse olhar o mundo, uma voz com que eu pudesse, frágil e firme, falar de mim. Não contar histórias, menos do que isso. Só falar.
”
”
Elvira Vigna
“
Quando montava o Salomão, a subhro sempre lhe havia parecido que o mundo era pequeno, mas hoje, no cais do porto de génova, alvo dos olhares de centenas de pessoas literalmente embevecidas pelo espectáculo que lhes estava sendo oferecido, quer com a sua própria pessoa quer com um animal em todos os aspectos tão desmedido que obedecia ás suas ordens, fritz contemplava com uma espécie de desdém a multidão, e, num insólito instante de lucidez e relativização, pensou que, bem vistas as coisas, um arquiduque, um rei, um imperador não são mais do que cornacas montados num elefante.
”
”
José Saramago (A Viagem do Elefante)
“
Perseguida pelo medo da velhice, deixei envelhecer a nossa relação. Ocupada em me fazer bela, deixei escapar a verdadeira beleza, que apenas mora no desnudar do olhar. O lençol esfriou, a cama se desaventurou. Esta é a diferença: a mulher que tu encontraste aí, em África, fica bela apenas para ti. Eu ficava bela para mim, que é um outro modo de dizer: para ninguém.
”
”
Mia Couto (Jesusalém)
“
No tempo em que éramos felizes não chovia. Levantávamo-nos¬ juntos, abraçados ao sol. As manhãs eram um céu infinito. O nosso amor era as manhãs. No tempo em que éramos felizes o horizonte tocava-se com a ponta dos dedos. As marés traziam o fim da tarde e não víamos mais do que o olhar um do outro. Brincávamos e éramos crianças felizes. Às vezes ainda te espero como te esperava quando chegavas com o uniforme lindo da tua inocência. Há muito tempo que te espero. Há muito tempo que não vens.
”
”
José Luís Peixoto
“
Se as pessoas começarem a parar por um momento para olhar paras os casos como o meu, ou, simplesmente para a sua própria vida com olhos de ver, talvez comecem a relativizar os seus próprios problemas e possam perceber o que de facto vale a pena na vida.
”
”
António Feio (Aproveitem a Vida)
“
Vê um jovem que se afasta da vida dela e se vai, parra sempre inacessível. Hipnotizada, nada pode fazer senão olhar esse pedaço da sua vida que se afasta, não pode senão olhá-lo e sofrer. Experimenta uma sensação inteiramente nova que se chama nostalgia.
”
”
Milan Kundera (Ignorance)
“
O que constitui um enigma é a sua ligação, é o que está entre elas – é o facto de eu ver as coisas no seu devido lugar, precisamente porque elas se eclipsam umas às outras –, é o serem rivais perante o meu olhar, precisamente porque cada uma está no seu lugar.
”
”
Maurice Merleau-Ponty (O olho e o espírito)
“
Destruir o homem é difícil, quase tanto como criá-lo: custou, levou tempo, mas vocês, alemães, conseguiram. Aqui estamos, dóceis sob o seu olhar; de nós, vocês não têm mais nada a temer. Nem atos de revolta, nem palavras de desafio, nem um olhar de julgamento.
”
”
Primo Levi (If This is a Man: Remembering Auschwitz (A 3 in 1 Volume))
“
podes estar apaixonada e ao mesmo tempo incrivelmente só. Podes ter tudo o que sempre quiseste só para te dares conta que tudo o que querias estava errado. Podes ter um marido inteligente atraente e cheio de compaixão como o meu e mesmo assim não o ter na realidade. E algumas vezes podes olhar para a tua filha linda e preciosa e ficar genuinamente ciumenta de quanto ele a ama em vez de ti.
”
”
Lisa Gardner (The Neighbor (Detective D.D. Warren, #3))
“
Se permanecesse imóvel por um tempo, aconteceria o inverso daquilo que ela esperava: as letras é que começariam a olhar para ela. E iriam segredar-lhe histórias. Tudo aquilo parecem desenhos, mas dentro das letras estão vozes. Ao lermos não somos o olho; somos o ouvido.
”
”
Mia Couto (Mulheres de Cinzas (As Areias do Imperador, #1))
“
Mas como era extraordinária aquela sala cheia de gente — ou melhor, de animais -, a olhar na mesma direcção, para outros animais mascarados e treinados para representar num palco, para animais cobertos de tecido e bocados de peles, ornamentados com pedras e de rostos e garras pintados. Toda a gente acabara de comer um animal de qualquer espécie; as peles que se viam por toda a parte, apesar de a noite estar quente, provinham de animas que tinham vivido, brincado e fornicado em florestas e campos, e os pés de toda a gente estavam cobertos de pele de animais.
”
”
Doris Lessing (The Summer Before the Dark)
“
O amor tem nome, mas não é nada que a gente possa reconhecer só de olhar. A dor a gente sabe o que é, tem lugar e intensidades que cabem na ciência. A raiva, o medo, o ódio entortam a cara com um jeito provável de se manifestar. Mas e o amor? O que é senão um monte de gostar? Gostar de falar, gostar de tocar, gostar de cheirar, gostar de ouvir, gostar de olhar. Gostar de se abandonar no outro. O amor não passa de um gostar de muitos verbos ao mesmo tempo.
”
”
Carla Madeira (Tudo é Rio)
“
(...)sentou-se para descansar e em breve fazia de conta que ela era uma mulher azul porque o crepúsculo mais tarde talvez fosse azul, faz de conta que fiava com fios de ouro as sensações. faz de conta que a infância era hoje e prateada de brinquedos, faz de conta que uma veia não se abrira e faz de conta que dela não estava em silêncio alvíssimo escorrendo sangue escarlate, e que ela não estivesse pálida de morte mas isso fazia de conta que estava mesmo de verdade, precisava no meio do faz de conta falar a verdade de pedra opaca para que contrastasse com o faz de conta verde-cintilante, faz de conta que amava e era amada, faz de conta que não precisava morrer de saudade, faz de conta que estava deitada na palma transparente de Deus, não Lóri mas o seu nome secreto que ela por enquanto ainda não podia usufruir, faz de conta que vivia e não que estivesse morrendo pois viver afinal não passava de se aproximar cada vez mais da morte, faz de conta que ela não ficava de braços caídos de perplexidade quando os fios de ouro que fiava se embaraçavam e ela não sabia desfazer o fino fio frio, faz de conta que ela era sábia bastante para desfazer os nós de corda de marinheiro que lhe atavam os pulsos, faz de conta que tinha um cesto de pérolas só para olhar a cor da lua pois ela era lunar, faz de conta que ela fechasse os olhos e seres amados surgissem quando abrisse os olhos úmidos de gratidão, faz de conta que tudo o que tinha não era faz de conta, faz de conta que se descontraía o peito e uma luz douradíssima e leve guiava por uma floresta de açudes mudos e de tranqüilas mortalidades, faz de conta que ela não era lunar, faz de conta que ela não estava chorando por dentro.
”
”
Clarice Lispector
“
Vocês se negaram, desde o começo, a me aceitar do jeito que eu era. Nasci sob o signo da desaprovação, sabe-se lá por quê. Desde pequena, recordo bem disso, nada que partisse de mim agradava vocês. Nunca um elogio foi feito, a coisa alguma; jamais um carinho. Sequer um olhar afetuoso eu lembro de ter recebido.
”
”
Fernanda Young (Tudo que Você Não Soube)
“
— E acabei por ir a casa dela para lhe configurar o sistema todo.
— Harry, «configuraste-lhe o sistema todo»? — perguntei, arregalando
os olhos e fingindo-me pasmado.
Baixou o olhar, mas não conseguiu esconder um sorriso.
— Tu percebeste.
— Não vais... penetrar as seguranças dela, pois não? — perguntei, incapaz
de resistir.
”
”
Barry Eisler (A Lonely Resurrection (John Rain, #2))
“
Raimundo Silva pensou, pessoanamente, Se eu fumasse, acenderia agora um cigarro, a olhar o rio, pensando como tudo é vago e vário, assim, não fumando, apenas pensarei que tudo é vário e vago, realmente, mas sem cigarro, ainda que o cigarro, se o fumasse, por si mesmo exprimisse a variedade e a vaguidade das coisas, como o fumo, se fumasse.
”
”
José Saramago (The History of the Siege of Lisbon)
“
Os que dormem, e os que já estão mortos, não passam de pinturas. É tão-somente o olhar de uma criança que se amedronta diante de um diabo desenhado.
”
”
William Shakespeare (Macbeth)
“
Ao amar se abandona todas as outras ilusões ao interpenetrá-las umas as outras em um só único olhar atencioso.
”
”
Filipe Russo (Caro Jovem Adulto)
“
Havia um curioso sossego em olhar o restante do mundo cuidar de suas vidas.
”
”
Jojo Moyes (Me Before You (Me Before You, #1))
“
Saio pela porta da frente deixando pra trás um rastro de olhares reprovadores, trago minha bagagem cultural bem alojada na corcunda.
”
”
Filipe Russo (Caro Jovem Adulto)
“
Era assombroso quanta informação podia se dar entre duas pessoas com um único olhar, sem que nenhuma palavra fosse dita.
”
”
Joe Hill (The Fireman)
“
Um dia, ao olhar para o passado e avaliar o uso do nosso tempo, o que mais encontraremos além do rastro da banalidade?
”
”
Seneca (Sobre a Brevidade da Vida: Edição especial com prefácio de Lúcia Helena Galvão Maya (Portuguese Edition))
“
A mente se autoedita. A mente se dá retoques. Habitar um corpo é diferente de estar fora dele. De fora, a gente pode olhar, inspecionar, comparar.
”
”
Jeffrey Eugenides (Middlesex)
“
As palavras dançam nos
olhos das pessôas conforme o palco dos olhos de cada um.
”
”
José de Almada Negreiros
“
Ninguém vai olhar para a minha pulseira colorida. No fundo eu sei que quero mostrar isso para mim mesmo.
”
”
Vitor Martins (Um Milhão de Finais Felizes)
“
Em algum momento você precisa parar de olhar para o céu, ou um belo dia, quando olhar para baixo novamente, vai se dar conta de que também saiu flutuando por aí.
”
”
John Green (Paper Towns)
“
Não lutes com monstros, pois podes tornar-te um. Se fitares o abismo durante muito tempo, o abismo devolve-te o olhar.
”
”
Fredrik Backman (My Grandmother Asked Me to Tell You She's Sorry)
“
ela machucou menos gente do que
qualquer pessoa que conheço,
e se você olhar por esse ângulo,
bem,
ela criou um mundo melhor.
ela venceu.
”
”
Charles Bukowski (On Love)
“
Mas era primavera. Até o leão lambeu a testa glabra da leoa. (…) ‘Mas isso é amor, é amor de novo’, revoltou-se a mulher tentando encontrar-se com o próprio ódio mas era primavera e os dois leões se tinham amado. (…) Mas era primavera, e, apertando o punho no bolso do casaco, ela mataria aqueles macacos em levitação pela jaula, macacos felizes como ervas, macacos se entrepulando suaves, a macaca com olhar resignado de amor, e a outra macaca dando de mamar. (…) Ela mataria a nudez dos macacos. Um macaco também a olhou, o peito pelado exposto sem orgulho. Mas não era no peito que ela mataria, era entre aqueles olhos. De repente a mulher desviou o rosto, trancando entre os dentes um sentimento que ela não viera buscar, apressou os passos, ainda voltou a cabeça espantada para o macaco de braços abertos: ele continuava a olhar para a frente. ‘Oh não, não isso’, pensou. E enquanto fugia, disse: ‘Deus, me ensine somente a odiar’.
‘Eu te odeio’, disse ela para um homem cujo crime único era o de não amá-la. ‘Eu te odeio’, disse muito apressada. (…) ‘Eu te amo’, disse ela então com ódio para o homem cujo grande crime impunível era o de não querê-la. ‘Eu te odeio’, disse, implorando amor.
”
”
Clarice Lispector
“
Fazal Elahi não o viu, pois tinha os olhos pousados noutros lugares, a visão tem esse estranho poder de olhar para um lugar e ver outro, ver algo completamente diferente, os olhos não olham sempre para o presente
”
”
Afonso Cruz (Para Onde Vão Os Guarda-Chuvas)
“
Eu tenho o direito de partilhar a dor, e aquele que é capaz de olhar para os encantos do mundo, e partilhar a sua dor, e compreender um pouco a maravilha de ambos, está em contacto direto com as coisas divinas (...)
”
”
Oscar Wilde (De Profundis)
“
Tua face expressa uma majestade singela,
Teu olhar é o de uma princesa cativa,
Teus lábios possuem um sorriso discreto e
Tudo isto revela a tua glória de ser mulher.
Excerto de: Luis A R Branco. “Versos Meus.” iBooks.
”
”
Luís Alexandre Ribeiro Branco (Versos Meus)
“
Ergueu a cabeça e, de cima do montículo, envolveu com um olhar ausente a vastidão deserta desse Outono e as cúpulas do mosteiro. O seu rosto, de nariz arrebitado, contraiu-se. Alongou o pescoço. Esse movimento de cabeça, num lobozinho, seria indício de que ia pôr-se a uivar. Com o rosto nas mãos, o pequeno desatou a chorar. Uma nuvem que corria ao seu encontro começou a vergastá-lo nas mãos e na face com as cordas de uma chuva gelada.
”
”
Boris Pasternak (Doctor Zhivago)
“
Num trabalho honesto", costumava dizer [Bartholomew Roberts], "o que se vê é gente magra, salários baixos e muito trabalho. Neste daqui, o que temos é fartura e saciedade, prazer e alegria, liberdade e poder. E quem não iria fazer o prato da balança pesar para este lado, quando tudo o que se arrisca daqui, na pior das hipóteses, é apenas um olhar ou dois de tristeza, no instante em que se sufoca? Não, meu lema será sempre por uma vida feliz e curta.
”
”
Daniel Defoe (A General History of the Pyrates)
“
Eu vivia à base de fotossíntese: arrancava o néctar dos teus lábios aos beijos e captava o brilho atencioso do teu olhar para em meu coração adivinhar um morno amor de um empuxo que me mantinha suspenso sobre o próprio cataclisma.
”
”
Filipe Russo (Caro Jovem Adulto)
“
PANORAMA ALÉM
Não sei que tempo faz, nem se é noite ou se é dia.
Não sinto onde é que estou, nem se estou. Não sei de nada.
Nem de ódio, nem amor. Tédio? Melancolia.
-Existência parada. Existência acabada.
Nem se pode saber do que outrora existia.
A cegueira no olhar. Toda a noite calada
no ouvido. Presa a voz. Gesto vão. Boca fria.
A alma, um deserto branco: -o luar triste na geada...
Silêncio. Eternidade. Infinito. Segredo.
Onde, as almas irmãs? Onde, Deus? Que degredo!
Ninguém.... O ermo atrás do ermo: - é a paisagem daqui.
Tudo opaco... E sem luz... E sem treva... O ar absorto...
Tudo em paz... Tudo só... Tudo irreal... Tudo morto...
Por que foi que eu morri? Quando foi que eu morri?
”
”
Cecília Meireles
“
Ela afastou ligeiramente o cobertor; um assomo de raiva perpassou-lhe o olhar, endurecendo o rosto, que, a cada dia que passava, ia assumindo os seus contornos adultos. Era a dor; a dor arranca-nos à infância como se arranca uma flor do caule.
”
”
João Tordo (O Luto de Elias Gro)
“
As faces estavam macilentas e o olhar tinha qualquer coisa de estagnado, visto mais de perto. Contudo, na voz, nos gestos, no olhar havia algo que a fazia mais real, mais palpável, ela que se tornara uma figura tênue como um sonho na escuridão.
”
”
Lygia Fagundes Telles (Ciranda de Pedra)
“
Talvez seja possível amar uma mulher por causa de um livro, de um poema sublinhado, de um filme a preto e branco, de uma casa, do olhar de um homem quando fala dela, da forma como o seu cão a espera. Da reprodução de um Mondrian na parede da sala.
”
”
Ana Teresa Pereira
“
Vão dar-te nome, vestir-te com o calor e o frio das estações, erguer-te das pedras, das estacas de madeira, das latas ferrugentas, das embalagens vazias de leite e detergente, dos pneus perdidos, com rosto de pessoa que respira.
Despida de letras e de números ganharás o sangue do nome que tomares, de herói, árvore, estrela, oceano ou concha. E as janelas vão abrir-se todas as manhãs sobre o teu corpo, e dentro delas as pessoas estarão a olhar-te com a mansa inquietação de quem vê crescer um filho.
”
”
Alice Vieira (Lote 12 - 2º Frente)
“
Cada livro, cada volume que vês, tem alma. A alma de quem o escreveu e a alma de quem os leu e viveram e sonharam com ele. De cada vez que um livro muda de mãos, de cada vez que alguém desliza o olhar pelas páginas, o seu espírito cresce e robustece-se.
”
”
Carlos Ruiz Zafón (The Shadow of the Wind (The Cemetery of Forgotten Books, #1))
“
Ela multiplicava os colchetes e os alfinetes por sítios para onde ninguém se lembraria de olhar. O que é característico do puritanismo é pôr tanto mais guardas quanto a fortaleza está menos ameaçada.
(…) O puritanismo é uma meia-virtude e um meio-vício.
”
”
Victor Hugo (Les Misérables)
“
- As wiccanfae não merecem estar entre nós...e Tir Alainn não é o lugar delas.
- Nesse caso, sugiro que se vá embora.
Lucian fixara-a com o olhar até Selena começar a perder mão sobre si mesma, em vias de se descontrolar.
- Eu sou Fae - afirmara - e sou Filha da Casa de Gaian, o que implica que também sou wiccanfae. No entanto, se eu sou wiccanfae,o que julga o Senhor do Fogo que é?
- Como?!
- O fogo é um dos elementos da Mãe Universal. Não é uma dádiva dos Fae. O único motivo pelo qual o senhor o domina é por ser descendente de pelos menos uma pessoa que pertencia à Casa de Gaian.
- Mentira - brandira Lucian - Eu sou Fae.
- Wiccanfae! - atirara Selena, no mesmo tom. - Quem tem o seu poder não pode ter sangue puro. Quem julgava o senhor que era?...
”
”
Anne Bishop (The House of Gaian (Tir Alainn, #3))
“
[...] o Major Saulo, de botas e esporas, corpulento, quase um obeso, de olhos verdes, misterioso, que só com o olhar mandava um boi bravo se ir de castigo, e que ria, sempre ria — riso grosso, quando irado; riso fino, quando alegre; e riso mudo, de normal.
”
”
João Guimarães Rosa (O Burrinho Pedrês)
“
A noite cai. Ou caiu a noite. Por que a noite cai, em vez de subir como o raiar do dia? Contudo, se você olhar para o leste, ao pôr-do-sol, pode ver a noite subindo, não caindo; a escuridão se eleva em direção ao céu, subindo do horizonte, como um sol negro atrás de uma coberta de nuvem. Como fumaça de chamas que não se vê, uma linha de fogo pouco abaixo do horizonte, um fogo em meio à mata ou uma cidade em chamas. Talvez a noite caia porque é pesada, uma cortina espessa puxada sobre os olhos. Cobertor de lã. Eu gostaria de poder ver no escuro, melhor do que vejo.
”
”
Margaret Atwood (The Handmaid’s Tale (The Handmaid's Tale, #1))
“
Religiões são, por definição, metáforas, apesar de tudo: Deus é um sonho, uma esperança, uma mulher, um escritor irônico, um pai, uma cidade, uma casa com muitos quartos, um relojoeiro que deixou seu cronômetro premiado no deserto, alguém que ama você – talvez até, contra todas as evidências, um ente celestial cujo único interesse é assegurar-se que o seu time de futebol, o seu exército, o seu negócio ou o seu casamento floresça, prospere e triunfe sobre qualquer oposição. Religiões são lugares para ficar, olhar e agir, pontos vantajosos a partir dos quais se observa o mundo.
”
”
Neil Gaiman (American Gods: Tenth Anniversary (American Gods, #1))
“
(...), o Lobo das Estepes lançou-me um olhar muito rápido, de crítica aquelas palavras e a toda a pessoa do conferencista, oh!, um olhar inesquecível, terrível, cujo significado daria para escrever um tratado! Era um olhar que nao se limitava a criticar aquele orador, destruindo o famoso personagem com a sua ironia leve, mas categórica; não, isso ainda era o menos que nele se lia. Era um olhar mais triste do que ironico, de uma tristeza mesmo abismal, sem esperança; continha em si um desespero silencioso, desespero de certo modo estabilizado, de certo modo já feito hábito e forma.
”
”
Hermann Hesse (Steppenwolf)
“
Mas juro-te [burocrata do sector de viagens da RTP] que hás-de morrer sem conhecer o prazer de estar deitado de costas na areia, coberto de pó e de sujidade, a arrotar atum por todos os lados, com os músculos a doerem, e a olhar para um céu pejado de estrelas e pensar que é fantástico estar vivo.
”
”
Miguel Sousa Tavares (Sul)
“
Eu o observava enquanto ele se movia. Então observei os rostos que o observavam. E tive medo. Eu sabia que as pessoas estavam olhando, que fazia algum tempo que estavam olhando para nós dois. Elas sabiam que haviam testemunhado um começo, e agora não iam parar de olhar enquanto não assistissem ao fim.
”
”
James Baldwin (O quarto de Giovanni)
“
Mas, assim, pensas que isto tudo é uma confusão, circo meu das palhaçadas, cabeçadas na lógica? Ainda vais rir, mas prepara também o teu coração pra chorar, a vida é mesmo esse laço apertado, tem dias que lhe conhecemos os segredos – lhe desapertamos, outros dias lutamos só, nossas derrotas e lágrimas, e ficamos a olhar: o pescador se irrita com os nós da rede? Isto tudo que eu te falo, não é efeito do álcool, não é com três nem sete que me vais derrubar; isto tudo que eu falo é assim mesmo, a mancha da confusão, labirinto, e há que descobrir as coisas no devagar das coisas: o amor não acende um fósforo sozinho.
”
”
Ondjaki (Quantas Madrugadas Tem a Noite)
“
O olhar de Robert, com efeito, parecia por momentos atingir uma profundidade que abandonava em seguida, como um mergulhador que tocou o fundo. Esse fundo, que tanto mal fazia a Robert quando o tocava que ele o deixava imediatamente para voltar um instante depois, era a lembrança de que havia rompido com a sua amante.
”
”
Marcel Proust (The Guermantes Way)
“
Todos nós temos necessidade de ser olhados. Podemos ser classificados em quatro categorias, segundo o tipo de olhar sob o qual queremos viver.
A primeira procura um olhar de um número infinito de olhos anônimos, em outras palavras, o olhar do público.(...)
Na segunda categoria, estão aqueles que não podem viver sem o olhar de numerosos olhos famliares. São os organizadores incansáveis de coquetéis e jantares. São mais felizes que os da primeira categoria, que, quando perdem o seu público, imaginam que a luz se apagou na sala de suas vidas. É o que acontece a todos, mais dia, menos dia. As pessoas da segunda categoria, pelo contrário, sempre conseguem arrumar quem as olhe. (...)
Em seguida, vem a terceira categoria, as dos que têm necessidade de viver sob o olhar do ser amado. A situação deles é tão perigosa quanto a daqueles do primeiro grupo. Basta que os olhos do ser amado se fechem para que a sala fique mergulhada na escuridão.(...)
Por fim, existe a quarta categoria, a mais rara, a dos que vivem sob os olhares imaginários dos ausentes. São os sonhadores. Por exemplo, Franz. Se ele chegou até a fronteira do Camboja, foi unicamente por causa de Sabina. O ônibus chacoalha na estrada da Tailândia e ele sente que os olhos de Sabina estão pousados sob ele.
”
”
Milan Kundera
“
É muito fácil julgar os outros quando você está olhando de longe. É fácil olhar para alguém fora do seu mundo e fazer uma porção de afirmações e julgamentos sobre quem aquelas pessoas são. Porque quando você vê os defeitos dos outros, você meio que justifica que seus defeitos são melhores que os deles. Porém, quando olha com atenção, quando realmente enxerga a pessoa ao seu lado, vê muitas coisas iguais. Esperança. Amor. Medo. Raiva. Quando olha com atenção, percebe que vocês são parecidos de muitas maneiras. O sangue de todos nós é vermelho, e até mesmo o coração de um monstro pode se partir. Você só precisa se lembrar de sempre olhar com atenção.
”
”
Brittainy C. Cherry (Disgrace)
“
A quarta-feira amanhecia quando olhei pela janela. Nas pontes, as luzes cintilantes já haviam empalidecido. O sol nascente parecia um pântano de fogo no horizonte. O rio, ainda escuro e misterioso, cortado pelas pontes que tomavam uma coloração cinza e gélida, com um toque cálido do sol que ardia no céu. Ao percorrer com o olhar a multidão de telhados, com as torres e os campanários das igrejas que se elevavam sobre Londres em um céu invulgarmente claro, o sol nasceu e foi como se tivessem retirado um véu do rio, e milhões de fagulhas explodiram na superfície das águas. Também foi como se tivessem tirado o véu que me encobria, e me senti forte e bem-disposto.
”
”
Charles Dickens (Great Expectations)
“
Até porque os reis - tirando esse D. Afonso Henriques, ainda um quase aprendiz nas manhas do Poder - não têm tempo para andar pelas ruas a olhar para as árvores.
É pena. Talvez as coisas fossem diferentes se eles olhassem um pouco mais para as árvores e menos para as suas espadas. "Se o seu coração fosse feito de sangue em vez de ferro...
”
”
Alice Vieira (Promontório Da Lua: Histórias De Cascais)
“
A rua pode ser um espaço que não está vivo nem morto, mas cuja vida ou morte, amor ou ódio depende de um olhar. A realidade é iluminada pela atenção. Há um cobertor abstrato à nossa volta que se torna palpável se o observarmos, se o sentirmos ou se ele nos forçar a que o testemunhemos. A beleza, o medo, o terror, o inesperado, a harmonia são maneiras de a realidade engordar, de surgirem figuras do seu espaço abstrato, de se revelarem objetos e entidades nomeáveis que, por milagre, saem do caos e ganham carne. É como se alguma coisa nos tocasse fisicamente, nos beijasse, nos magoasse, nos ferisse. Sem qualquer emoção ou sentimento, o mundo é fugaz e volúvel, é frágil e friável.
”
”
Afonso Cruz (O Vício dos Livros)
“
- Eu sabia que tinhas lido o Simpósio durante as férias -, [Clive] disse em voz baixa.
Maurice sentiu-se apreensivo.
- Compreendes então...sem que eu precise de dizer mais.
- O que é que queres dizer?
Durham não podia esperar. Estavam rodeados de pessoas mas, com um olhar que se tornou de um azul intenso, segredou: - Amo-te.
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p.67, MAURICE, E.M. FORSTER
“I knew you read the Symposium in the vac," he said in a low voice.
Maurice felt uneasy.
"Then you understand - without me saying more - "
"How do you mean?"
Durham could not wait. People were all around them, but with eyes that had gone intensely blue he whispered, "I love you.
”
”
E.M. Forster (Maurice)
“
Por um instante a morte soltou-se a si mesma, expandindo-se até às paredes, encheu o quarto todo e alongou-se como um fluido até à sala contígua, aí uma parte de si deteve-se a olhar o caderno que estava aberto sobre uma cadeira, era a suite número seis opus mil e doze em ré maior de Johann Sebastian Bach composta em cöthen e não precisou de ter aprendido música para saber que ela havia sido escrita, como a Nona Sinfonia de Beethoven, na tonalidade da alegria, da unidade entre os homens, da amizade e do amor. Então aconteceu algo nunca visto, algo não imaginável, a morte deixou-se cair de joelhos, era toda ela, agora, um corpo refeito, e por isso é que tinha joelhos, e pernas, e pés, e braços, e mãos, e uma cara que entre as mãos escondia, e uns ombros que tremiam não se sabe porquê, chorar não será, não se pode pedir tanto a quem sempre deixa um rasto de lágrimas por onde passa, mas nenhuma delas que seja sua. Assim como estava, nem visível nem invisível, em esqueleto nem mulher, levantou-se do chão como um sopro e entrou no quarto.
”
”
José Saramago (Death with Interruptions)
“
Ficámos de novo sem assunto. Olhei à minha volta. O branco é triste como o negro, nunca antes o tinha sentido. (...) Não lhe acariciei a mão, nem lhe pus a minha sobre a testa, num gesto de consolação. Não fiz nada disso. E devia-o ter feito. Mas que a tristeza me dominou, que apeteceu chorar, por ver o meu pai tão doente, isso era verdade. Ele tê-lo-ia compreendido?
Decerto é ilusão julgarmos que outras pessoas podem compartilhar dos nossos sentimentos através de simples palavras. Se eu dissesse que vejo na memória um homem encolhido na cadeira, metido num fato largo demais como se não pertencesse, com as mãos amarelo torcidas sobre o ventre e o olhar fixo no chão, alguém o verá como eu o vi?
”
”
Ilse Losa (O Mundo Em Que Vivi)
“
O Que é o Niilismo para mim?
O Niilismo, é o nada; É Como ir a maior praia do mundo se ajoelhar e com uma pequena pinça pegar um único grão de areia, colocar esse grão na palma das mãos. Ir até o mar, e então soltar o grão olhar para trás e perceber a grande diferença que aquele pequeno grão de areia fez.
Isso é o Niilismo, e nós somos o grão de areia.
”
”
Gerson De Rodrigues
“
Comportamo-nos como se as pessoas de quem gostamos fossem durar para sempre. Em vida não fazemos nunca o esforço consciente de olhar para elas como quem se prepara para lembrá-las. Quando elas desaparecem, não temos delas a memória que nos chegue. Para as lembrar, que é como quem diz, prolongá-las. A memória é o sopro com que os mortos vivem através de nós. Devemos cuidar dela como da vida.
Devemos tentar aprender de cor quem amamos. Tentar fixar. Armazená-las para o dia em que nos fizerem falta. São pobres as maneiras que temos para o fazer, é tão fraca a memória, que todo o esforço é pouco. Guardá-las é tão difícil. Eu tenho um pequeno truque. Quando estou com quem amo, quando tenho a sorte de estar à frente de quem adivinho a saudade de nunca mais a ver, faço de conta que ela morreu, mas voltou mais um único dia, para me dar uma última oportunidade de a rever, olhar de cima a baixo, fazer as perguntas que faltou fazer, reparar em tudo o que não vi; uma última oportunidade de a resguardar e de a reter. Funciona.
Miguel Esteves Cardoso, in 'As Minhas Aventuras na República Portuguesa
”
”
Miguel Esteves Cardoso (As Minhas Aventuras na República Portuguesa)
“
-É fácil olhar para as pessoas e fazer rápidos juizos de valor sobre elas,sobre o seu presente e passado. Contudo, ficarias espantada com a dor e as lágrimas que um pequeno sorriso esconde. O que uma pessoa mostra ao mundo é apenas uma faceta mínima do icebergue que esconde. E, mais vezes do que pensas, está coberto de fendas e marcas que o atravessam até á base da alma.
”
”
Sherrilyn Kenyon (Acheron (Dark-Hunter, #14))
“
E tinha realmente um filho nos braços da mulher adormecida. Um filho simples, natural, sem precisos, sem Joana Pedra, sem faixas, sem cueiros, sem nada.
Um filho que o acordou cedo a gritar com a mesma fome do gado, e que, à tarde, quando regressou do monte, lhe fez dizer à mulher, depois de pegar nele ao colo e de olhar da janela o mundo outra vez coberto de sonho (...)
”
”
Miguel Torga (Contos Da Montanha)
“
(...) Não há um caseiro, não há um pescador que não saiba ler e que não leia.
Pensamos que os livros, em vez de criarem bolor atrás de uma grade de ferro, longe dos olhares curiosos, se destinam a ficar gastos sob os olhos dos leitores. Assim, estes volumes passam de mão em mão, folheados, lidos e relidos, e muitas vezes só regressam à sua secção após um ou dois anos de ausência.
”
”
Julio Verne (Journey to the Center of the Earth)
“
quando os nossos corpos se separaram olhámo-nos quase a desejar
[ser felizes.
vesti-me devagar, o corpo a ser ridículo. disse espero que encontres
[um homem
que te ame, e ambos baixámos o olhar por sabermos que esse
[homem não existe.
despedimo-nos. tu ficaste para sempre deitada na cama e nua, eu saí
[para sempre
na noite. olhámo-nos pela última vez e despedimo-nos sem sequer
[nos conhecermos.
”
”
José Luís Peixoto (A Criança em Ruínas)
“
Ouvira os outros falarem com desprezo do dinheiro: teriam experimentado um dia viver sem ele? Sabia que a falta de dinheiro torna o homem mesquinho, vil e avarento; deforma-lhe o caráter e o faz olhar o mundo por um prisma vulgar. Quando se tem de levar em conta cada vintém, o dinheiro assume uma importância grotesca. É preciso que estejamos numa situação desafogada para atribuir-lhe o seu valor real.
”
”
W. Somerset Maugham (Of Human Bondage)
“
Brianna olhou para seu relógio, ainda surpresa em vê-lo ali. Ainda faltava meia hora. Se pudessem evitar derramamento de sangue até...
Um grito lancinante vindo de cima e ela fez uma careta. A ajudante, menos preparada, deixou cair sua prancheta de anotações com um gritinho.
- MAMÃE! - Jem, em tom de queixa.
- O QUE FOI? - ela rugiu em resposta. - Estou OCUPADA!
-Mas mamãe! Mandy me BATEU! -veio o relato indignado do alto da escada. Erguendo os olhos, ela podia ver a parte de cima de sua cabeça, a luz da janela brilhando em seus cabelos.
- É mesmo? Bem...
- Com uma VARINHA!
- Que tipo de...
- De PROPÓSITO!
- Bem, não acho...
- E... - uma pausa antes do desfecho incriminador - ELA NÃO PEDIU DESCULPAS!
O construtor e sua ajudante desistiram de procurar larvas de caruncho para acompanhar a emocionante narrativa, e agora ambos olhavam para Brianna, sem dúvida esperando algum decreto salomônico.
Brianna fechou os olhos por um instante.
- MANDY - ela berrou. - Peça desculpas!
- Não! - veio uma recusa estridente de cima.
- Sim, tem que pedir! - veio a voz de Jem, seguida de ruídos de luta.
Brianna dirigiu-se às escadas, com um olhar assassino. Assim que botou o pé no degrau, Jem emitiu um grito agudo.
- Ela me MORDEU!
- Jeremiah Mackenzie, nem PENSE em devolver a mordida! - gritou. - Vocês dois, parem com isso agora mesmo!
Jem enfiou uma cabeça desgrenhada pelo corrimão, os cabelos arrepiados. Usava uma brilhante sombra azul nos olhos e alguém aplicara batom cor-de-rosa em uma forma tosca de boca de uma orelha à outra.
- Ela é uma pestinha - ele informou furiosamente aos fascinados espectadores embaixo. - Meu avô disse.
”
”
Diana Gabaldon (A Breath of Snow and Ashes (Outlander, #6))
“
Nem suspeitavas então que, entre todos aqueles vultos indiferentes, havia um olhar que te seguia sempre e um coração que adivinhava os teus pensamentos, que se expandia quando te via sorrir e contraía-se quando uma sombra de melancolia anuviava o teu semblante.
"Se pronunciavam o teu nome diante de mim, corava e na minha perturbação julgava que tinham lido esse nome nos meus olhos ou dentro de minh'alma, onde eu bem sabia que ele estava escrito.
"E, entretanto, nem sequer ainda me tinhas visto; se teus olhos haviam passado alguma vez por mim, tinha sido em um desses momentos em que a luz se volta para o íntimo, e se olha, mas não se vê.
"Consolava-me, porém, que algum dia o acaso nos reuniria, e então não sei o que me dizia que era impossível não me amares.
"O acaso deu-se, mas quando a minha existência já se tinha completamente transformado.
”
”
José de Alencar (Cinco Minutos)
“
Eu espero alguém que não desista de mim mesmo quando já não tem interesse.
Espero alguém que não me torture com promessas de envelhecer comigo, mas sim que realmente envelheça comigo.
Espero alguém que se orgulhe do que escrevo, que me faça ser mais amigo dos meus amigos e mais irmão do meu irmão.
Espero alguém que não tenha medo do escândalo, mas tenha medo da indiferença.
Espero alguém que ponha bilhetinhos dentro daqueles livros que vou ler até o fim.
Espero alguém que se arrependa rápido de suas grosserias e me perdoe sem querer.
Espero alguém que me avise que estou repetindo a roupa na semana.
Espero alguém que nunca abandone a conversa quando não sei mais o que falar.
Espero alguém que, nos jantares entre os amigos, dispute comigo para contar primeiro como nos conhecemos.
Espero alguém que goste de dirigir para nos revezarmos em longas viagens.
Espero alguém disposto a conferir se a porta está fechada e o fogão desligado, se meu rosto está aborrecido ou esperançoso.
Espero alguém que prove que amar não é contrato, que o amor não termina com nossos erros.
Espero alguém que não se irrite com a minha ansiedade.
Espero alguém que possa criar toda uma linguagem cifrada para que ninguém nos recrimine.
Espero alguém que arrume ingressos de teatro de repente, que me sequestre ao cinema, que cheire meu corpo suado depois de uma corrida como se ainda fosse perfume.
Espero alguém que não largue as mãos dadas nem para coçar o rosto.
Espero alguém que me olhe demoradamente quando estou distraído, que me telefone para narrar como foi seu dia.
Espero alguém que procure um espaço acolchoado em meu peito.
Espero alguém que minta que cozinha e só diga a verdade depois que comi.
Espero alguém que leia uma notícia, veja que haverá um show de minha banda predileta, e corra para me adiantar por e-mail.
Espero alguém que ame meus filhos como se estivesse reencontrando minha infância e adolescência fora de mim.
Espero alguém que fique me chamando para dormir, que fique me chamando para despertar, que não precise me chamar para amar.
Espero alguém com uma vocação pela metade, uma frustração antiga, um desejo de ser algo que não se cumpriu, uma melancolia discreta, para nunca ser
prepotente.
Espero alguém que tenha uma risada tão bonita que terei sempre vontade de ser engraçado.
Espero alguém que comente sua dor com respeito e ouça minha dor com interesse.
Espero alguém que prepare minha festa de aniversário em segredo e crie conspiração dos amigos para me ajudar.
Espero alguém que pinte o muro onde passo, que não se perturbe com o que as pessoas pensam a nosso respeito.
Espero alguém que vire cínico no desespero e doce na tristeza.
Espero alguém que curta o domingo em casa, acordar tarde e andar de chinelos, e que me pergunte o tempo antes de olhar para as janelas.
Espero alguém que me ensine a me amar porque a separação apenas vem me ensinando a me destruir.
Espero alguém que tenha pressa de mim, eternidade de mim, que chegue logo, que apareça hoje, que largue o casaco no sofá e não seja educada a ponto de estendê-lo no cabide.
Espero encontrar uma mulher que me torne novamente necessário.
”
”
Fabrício Carpinejar
“
É triste pensar que a mocidade
É um prêmio que nos foi dado em vão,
Que ela nos iludiu, na verdade,
E nós lhe pagamos com traição;
Que os nossos melhores desejos,
Que os nossos sonhos, num lampejo,
Viraram cinzas, murchas e tortas,
Como folhas pelo outono mortas.
É insuportável olhar para a frente
E só ver um banquete infinito,
Ver na vida um árido rito,
Seguir com ar solene essa gente,
Sem compartilhar opiniões
Nem ódios nem dores nem paixões.
”
”
Alexander Pushkin (Eugene Onegin)
“
Ia em direção ao ferry e quando cheguei à esquina parei a ver o que ele fazia. Foi a última vez que o vi e lembro-me muito claramente. Caminhou pelo molhe e parou junto ao poste de um candeeiro, a olhar para o mar. O único ser vivo numa cidade morta das Caraíbas: uma figura alta num fato gasto de Palm Beach, o seu único fato, agora cheio de pó e manchado de relva, com os bolsos largos, sozinho num molhe no fim do mundo imerso nos seus pensamentos
”
”
Hunter S. Thompson
“
- Que ondas enormes... - exclamou Thomas Buddenbrook.- Repara como se aproximam e rebentam, se aproximam e rebentam, uma atrás da outra, sem fim, sem propósito, mecânica e desordenadamente. E, no entanto, o seu marulhar é tão tranquilizador e reconfortante, como todas as coisas simples e necessárias da vida. Aprendi a gostar cada vez mais do mar... dantes, talvez preferisse as montanhas, porque ficavam mais longe daqui. Agora já não me atraem nada. Creio que apenas sentiria medo e vergonha. É que elas são muito caprichosas, tão irregulares, tão diversas... de certeza que me iria sentir muito pequeno ao pé delas. Que espécie de pessoas serão essas que preferem a monotonia do mar? Tenho a impressão de que são as que observaram por demasiado tempo- e com demasiada profundidade- as teias do seu mundo interior e que a única coisa que exigem agora, pelo menos do mundo exterior, é simplicidade... Não se trata de comparar as escaladas audazes pela montanha com o descanso sereno na areia da praia. Adiferença reside no olhar que se dirige numa e noutra direcção. Olhos seguros, obstinados e felizes, transbordantes de iniciativa, determinação e vitalidade, erram de cume em cume, ao passo que sobre a imensidão do mar- e das ondas que, conduzidas por um fatalismo místico e hipnótico, dançam e volteiam- repousa um olhar sonhador e velado, sábio e desalentado, o olhar de quem já alguma vez espreitou as profundezas e vislumbrou o triste caos da existência... Saúde e doença, é essa a grande diferença. Intrépidos, escalamos a extraordinária diversidade das montanhas denteadas e acidentadas, das alturas que rasgam os céus, a fim de pormos à prova a nossa vitalidade, intacta ainda. Repousamos, contudo, na ampla simplicidadedo mundo exterior, quando estamos cansados do caos que reina no interior.
”
”
Thomas Mann (Buddenbrooks: The Decline of a Family)
“
mas na foto, todo mundo parece tão... feliz. eu lembro de olhar a imagem e pensar que as fotos não expressam nenhuma verdade. não tem nenhum contexto, só a ilusão de que você está capturando um momento da vida de alguém, mas a vida não é uma coleção de retratado instantâneos, a vida é fluida. então fotos são como uma ficção. é o que eu mais amava sobre elas. todo mundo acha que fotografias retratam a verdade, mas elas são só uma mentira mais convincente.
”
”
V.E. Schwab
“
Acabei aprendendo que a gente sempre verá alguém reagindo de um jeito diferente, conforme o sentido que uma palavra ganhe na cabeça dessa pessoa. Para você, A pode significar apenas A; já um outro pode entender que A é o que vem antes de B, C e D. Você pode olhar para o copo com água até a metade e achar que está meio cheio, outro pode ver o mesmo copo e pensar que ele está meio vazio. E cada um vai reagir de acordo com o sentido que dá para cada coisa na vida.
”
”
Camilo Gomes Jr. (Em memória)
“
O prazer é uma experiência dos sentidos, não difere do puro olhar ou do puro sabor com que um belo fruto nos enche a língua; é uma experiência grande e infindável que nos é dada, um saber do mundo, a plenitude e o esplendor de todo o saber. E que a tenhamos não é mau; o que é mau é quase todos usarem mal e desperdiçarem essa experiência e tomarem-na como excitante nos momentos fatigados da sua vida e como distracção, em vez de concentração, para os pontos altos.
”
”
Rainer Maria Rilke (Letters to a Young Poet)
“
Enquanto o olhava, saboreando assim, em sua irritação, uma espécie de volúpia depravada, Léon avançou um passo. O frio a empalidecê-lo parecia derramar em sua face um langor mais suave; entre a sua gravata e o seu pescoço, a gola da camisa, um tanto frouxa, deixava ver a pele; uma ponta de orelha ultrapassava uma mecha de cabelo, e seu grande olhar azul, alçando-se às nuvens, pareceu a Emma mais límpido e mais belo do que os largos das montanhas onde o céu se espelha.
”
”
Gustave Flaubert (Madame Bovary)
“
O tempo entretanto corria, marcando cada vez mais precipitadamente a vida com sua batida silenciosa, não se pode parar um segundo sequer, nem mesmo para olhar para trás. “Pare, pare!”, se desejaria gritar, mas vê-se que é inútil. Tudo se esvai, os homens, as estações, as nuvens; e não adianta agarrar-se às pedras, resistir no topo de algum escolho, os dedos cansados se abrem, os braços se afrouxam, inertes, acaba-se arrastado pelo rio, que parece lento, mas não para nunca.
”
”
Dino Buzzati (The Tartar Steppe)
“
Ian permaneceria na aldeia por alguns dias, para se certificar de que Hiram e o povo de Pássaro estavam de comum acordo. No entanto, Jamie não estava absolutamente certo de que o senso de responsabilidade de Ian fosse sobrepujar seu senso de humor - de certa forma, o senso de humor de Ian tendia para o lado dos índios. Uma palavra da parte de Jamie poderia, portanto, vir a calhar, só por precaução.
- Ele tem mulher - Jamie disse a Pássaro, indicando Hiram com um movimento da cabeça, o qual agora estava empenhado em uma conversa séria com dois dos índios mais velhos. - Acho que ele não gostaria de uma mulher em sua cama. Ele pode ser indelicado com ela, não compreendendo o gesto de cortesia.
- Não se preocupe - Penstemon disse, ouvindo a conversa. Olhou para Hiram e seu lábio curvou-se com desdém. - Ninguém iria querer um filho DELE. Agora, um filho SEU, Matador-de-Urso... - Ela lhe lançou um longo olhar por baixo das pestanas e ele riu, saudando-a com um gesto de respeito.
Era uma noite perfeita, fria e revigorante, e a porta foi deixada aberta para que o ar pudesse entrar. A fumaça da fogueira erguia-se reta e branca, fluindo na direção do buraco no teto, seus fantasmas móveis parecendo espíritos ascendendo de alegria.
Todos haviam comido e bebido ao ponto de um agradável estupor, e houve um silêncio momentâneo e uma difusa sensação de paz e felicidade.
- É bom para os homens comerem como irmãos - Hiram observou para Urso-em-Pé, em seu titubeante tsalagi. Ou melhor, tentou. E afinal, Jamie refletiu, sentindo suas costelas rangerem sob a tensão, era realmente uma diferença muito pequena entre "como irmãos" e "seus irmãos".
Urso-em-Pé deu um olhar pensativo a Hiram e afastou-se disfarçadamente para longe dele.
Pássaro observou isso e, após um momento de silêncio, virou-se para Jamie.
- Você é um homem muito engraçado, Matador-de-Urso - ele repetiu, sacudindo a cabeça. - Você venceu.
”
”
Diana Gabaldon (A Breath of Snow and Ashes (Outlander, #6))
“
Houve um período em que o ceticismo foi o ramo filosófico favorito do Rex. E isso acabou por fazer com que se tornasse também o meu. Na verdade, um dos meus momentos favoritos como pai aconteceu por obra e graça de Descartes. O Rex tinha 7 anos. Fez um postal para o meu aniversário. Escreveu: Adoro-te, logo existo. Proponho aqui e agora que substituamos o cogito pelo te amo. Funciona igualmente bem. Serve para qualquer estado mental. Portanto, ao olhar para dentro, procure o amor.
”
”
Scott Hershovitz (Como Educar Um Filósofo (Portuguese Edition))
“
- Me explica como um narcisista como você consegue entender os outros tão bem?
- Porque eu presto atenção quando ninguém está olhando. Pessoas normais são acostumadas a prestar atenção nos outros e aí quando algo que as magoa acontece, elas não conseguem evitar e desviam a atenção para si mesmas. É um reflexo de defesa. Mas eu estou muito acostumado a olhar para mim. Quando algo assim acontece… eu consigo controlar. Consigo observar o outro quando cada um está cuidando de si mesmo.
”
”
Julianna Costa (Negligê (Portuguese Edition))
“
É um pouco assim: há linhas de ar em volta da sua cabeça, do seu olhar, zonas de detenção dos seus olhos, do seu olfato, do seu paladar, ou seja, você anda com seu limite por fora
e você não poderá ultrapassar esse limite quando pensar que já apreendeu plenamente qualquer coisa, a coisa que é igual a um iceberg, tem um pedacinho por fora e o mostra, com todo o resto do seu volume bem para lá do seu limite e foi assim que o Titanic afundou. Heste Holiveira sempre com os seus hexemplos. (SIC)
”
”
Julio Cortázar (Hopscotch)
“
Olhamos novamente para o homem e a natureza — com olhar mais desejoso: lembramo-nos, com sorriso melancólico, que agora sabemos coisas novas e diferentes em relação a eles, que um véu foi retirado — mas nos reanima ver novamente as luzes amortecidas da vida, e sair da claridade sóbria e terrível em que, como sofredores, víamos as coisas e através das coisas. Não nos aborrecemos quando os encantos da saúde recomeçam seu jogo — olhamos como que transformados, abrandados e ainda exaustos. Nesse estado não se pode ouvir música sem chorar.
”
”
Friedrich Nietzsche (Daybreak: Thoughts on the Prejudices of Morality)
“
Sabe o que me apetece fazer? Ficar nesta cama e vegetar. Podia vegetar muito confortavelmente aqui e deixar os outros tomar as decisões. – Deve ser você a tomá-las. Uma pessoa não pode viver como um vegetal. – Porquê? Deve ser maravilhoso viver como um vegetal – murmurou, com uma expressão distante de ternura no olhar. – É horrível. – Não, deve ser muito agradável estar livre de todas estas dúvidas e pressões. Creio que gostava de viver como um vegetal e não ter de tomar decisões importantes. – Que espécie de vegetal? – Um pepino ou uma cenoura.
”
”
Joseph Heller (Catch-22 (Artigo 22))
“
sob a cúpula do céu melancólico, com os pés chafurdados na poeira de um chão não menos desolado que o céu, eles avançavam com o olhar resignado daqueles cuja condenação é esperar sempre.
E o cortejo passou por mim e desapareceu na atmosfera do horizonte, aquele lugar em que a superfície arredondada do planeta se furta à curiosidade do olhar humano.
E durante alguns instantes, não pude deixar de cismar com aquele mistério; mas logo a irresistível Indiferença caiu sobre mim, prostrando-me de tal maneira que a eles não os prostravam as suas debilitantes Quimeras.
”
”
Charles Baudelaire (Paris Spleen)
“
O amor era cheio de janelas abertas, correntes de ar, milhões de bactérias , fontes de medos, milhões de deimos, o amor podia destruir as paredes que erigíamos com tanto esmero, o amor podia até abraçar o estrangeiro, a distância, podia destruir toda a ética, deixar-nos à mercê do insólito, do inesperado, do horror da surpresa. A minha noção de amor, na juventude, era uma noção de propriedade. Se era algo que podia fazer parte da casa e da sua perpetuação, muito bem, poderia ser considerado. De outro modo, era uma fera, uma ferida, uma doença, tal como o meu pai me ensinara: o amor constrói-se, por isso a escolha deve ser racional e não passional, escolhemos uma pessoa adequada e depois vamos criando um edifício amoroso. O amor que nasce do ímpeto sentimental ou carnal é perigoso. É um ladrão de sobriedade e de objectividade. Barbarifica-nos. Temos de olhar para ele como quem olha para a porta e vê o que está do lado de fora. A passos, devagar e ponderadamente, vai arriscando, conquistando território selvagem e domesticando-o. A exaltação é para as galinhas. Os seres humanos decidem com ponderação, é tão simples quanto isso, não cacarejam nervosos.
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Afonso Cruz (Princípio de Karenina (Geografias, #1))
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Ela nem sequer está autorizada a comer pudim de chocolate. Azar o teu, Hannah, quem mandou não fui eu, foi o médico. Não tenho culpa de seres gorda e lenta e de eu ser magro e brilhante. Não tenho culpa de ser tão lindo que obrigam a mãe a parar na rua quando ela me vai passear no carrinho para poderem ver melhor o meu belo «punim» - tu bem a ouves a contar esta história, é uma coisa em que eu não tive a menor responsabilidade, um simples facto da natureza, eu ter nascido lindo e tu teres nascido, se não feia, pelo menos uma criança para quem ninguém tem especial vontade de olhar.
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Philip Roth (Portnoy’s Complaint)
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Toda a poesia - e a canção é uma poesia ajudada - reflecte o que a alma não tem. Por isso a canção dos povos tristes é alegre e a canção dos povos alegres é triste.
O fado, porém, não é alegre nem triste. É um episódio de intervalo. Formou-o a alma portuguesa quando não existia e desejava tudo sem ter força para o desejar.
As almas fortes atribuem tudo ao Destino; só os fracos confiam na vontade própria, porque ela não existe.
O fado é o cansaço da alma forte, o olhar de desprezo de Portugal ao Deus em que creu e também o abandonou.
No fado os Deuses regressam legítimos e longínquos.
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Fernando Pessoa
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Talvez o senhor escreva para a posteridade. Mas queira ou não queira, para alguém escreve.
Mas é uma cilada: se consinto, o Autodidacta triunfa e sou imediatamente contornado, reivindicado, ultrapassado, porque o humanismo toma à sua conta e funda na mesma massa todas as atitudes humanas. Que agradável que é às vezes poder conversar assim, ao abandono.
Deitei um olhar à minha volta: móveis leves e soltos, e eu próprio. Era o que existia. O passado não existia. Nem as coisas, nem sequer no meu pensamento. Havia muito tempo que eu tinha compreendido que o meu me tinha escapado. Mas julgava, até então, que se tinha retirado do meu alcance. Para mim o passado era apenas entrada na reforma: era outra maneira de existir, um estado de férias e de inacção, cada acontecimento quando findara o seu papel se arrumava atinadamente, por si próprio, numa caixa e se tornava acontecimento honorário: tal é a dificuldade que se tem em imaginar o nada. Agora compreendia: a coisas são inteiramente o que parecem, e por trás delas...não há nada.Quando uma pessoa quer compreender uma coisa coloca-se diante dela, sem auxílio. De nada serviria todo o passado do mundo.
Acho que não temos de ir buscar tão longe o sentido da vida
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Jean-Paul Sartre
“
Estas «instruções de utilização» estão contidas no prospecto e parecem ao senhor Palomar perfeitamente plausíveis e imediatamente aplicáveis, sem esforço, desde que se esteja deveras seguro de ter uma individualidade que se possa despir e de estar a olhar o mundo do interior de um eu que
se possa dissolver, tornando-se apenas olhar. Mas é exactamente este ponto de partida que exige um esforço de imaginação
uplementar, dificílimo de efectuar quando o
nosso próprio eu é aglutinado por uma multidão compacta, que olha através do seus mil olhos e percorre sobre os seus pés o itinerário obrigatório da visita turística.
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Italo Calvino (Palomar)
“
Considerando-se tudo aquilo com que se espera que as mulheres convivam — os olhares lascivos que começam quando mal entramos na puberdade, o assédio, a violência à qual sobrevivemos ou contra a qual estamos sempre em guarda —, não posso deixar de me perguntar qual é o efeito de tudo isso sobre nós. Não apenas em relação a como as mulheres vivenciam o mundo, mas a como vivenciamos a nós mesmas. Passei a me questionar: Quem eu seria se não vivesse em um mundo que odeia as mulheres? Não consegui encontrar uma resposta satisfatória, mas percebi que há muito tempo venho guardando luto por essa versão de mim mesma que nunca existiu
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Jessica Valenti (Objeto sexual: Memórias de uma feminista (Portuguese Edition))
“
Já imaginou quão mais abrangente seria a sua vida, se o seu eu pudesse tornar-se mais pequeno; se fosse capaz de olhar para as outras pessoas com uma curiosidade simples e um prazer genuíno; se pudesse observá-las como são, circulando por aí no seu descontraído egoísmo, na sua viril indiferença? Posso garantir-lhe que começaria a interessar-se por elas, justamente pelo facto de elas não se interessarem por si. Abandonaria este teatro, mesquinho e espalhafatoso, em que está constantemente a ser representada a sua peçazita sem importância, e daria por si debaixo de um céu mais livre, numa rua cheia de esplêndidos desconhecidos.
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G.K. Chesterton (Orthodoxy)
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Nada.., que a tuga até num vale a pena…! Mambo que às vezes penso – epá, vais rir, eu sei, mas é o rabo das tugas… Meu, tábua d’engomar, a xoetice toda? Rabo foi aonde então, Nzambi lhes castigou assim porquê?, nossa observação que nós fazíamos, antigas missões na tuga e noutras europas mais, comissão disto e daquilo que dava é pra tirarmos comissões no nosso bolso, e nós ali no bar, fim de tarde, sem as palavras – os olhares só: uma tuga, duas tugas, muitas tugas, mas agora pra encontrar inda um rabo de acender mesmo as vistas? Passas mal. Uí, falo isso por causa da maka das culturas, diferenças só, que eu fico mesmo a pensar que a cultura está mesmo até nos nossos olhos de pessoas, tás a rir?, gala só então: um gajo é daqui, fica a pôr riso na dança dos tugas e outros europeus, ancas desarranjadas e não dão semba, tão a falar é malcriado, mambos dos brasileiros, carnaval só. Afinal? Mas depois, considera só: eles também a nos verem dançar e vestir e pôr cu duro, num vão falar dança dos bêbados?, a dar bungula puramente e pôr açúcar e as kabetulas todas, num vão dizer estamos a ficar parecidos com os macacos?, xinguilamentos musicais? Olhos deles, muadiê, tou ta pôr, e os nossos olhos todos de cada um: culturas!, num enormes plural e final das contas.
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Ondjaki (Quantas Madrugadas Tem a Noite)
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Era uma vez um pássaro. Adornado com um par de asas perfeitas e plumas reluzentes, coloridas e maravilhosas. Enfim, um animal feito para voar livre e solto no céu, e alegrar quem o observasse.
Um dia, uma mulher viu o pássaro e apaixonou-se por ele. Ficou a olhar o seu voo com a boca aberta de espanto, o coração batendo mais rapidamente, os olhos brilhando de emoção. Convidou-o para voar com ela, e os dois viajaram pelo céu em completa harmonia. Ela admirava, venerava, celebrava o pássaro.
Mas então pensou: talvez ele queira conhecer algumas montanhas distantes! E a mulher sentiu medo. Medo de nunca mais sentir aquilo com outro pássaro. E sentiu inveja, inveja da capacidade de voar do pássaro.
E sentiu-se sozinha.
E pensou: “vou montar uma armadilha. Da próxima vez que o pássaro surgir, ele não partirá mais.”
O pássaro, que também estava apaixonado, voltou no dia seguinte, caiu na armadilha, e foi preso na gaiola.
Todos os dias ela olhava o pássaro. Ali estava o objecto da sua paixão, e ela mostrava-o ás suas amigas, que comentavam: “Mas tu és uma pessoa que tem tudo.” Entretanto, uma estranha transformação começou a processar-se: como tinha o pássaro, e já não precisava de o conquistar, foi perdendo o interesse. O pássaro sem puder voar e exprimir o sentido da sua vida, foi definhando, perdendo o brilho, ficou feio – e a mulher já não lhe prestava atenção, apenas prestava atenção á maneira como o alimentava e como cuidava da sua gaiola.
Um belo dia o pássaro morreu. Ela ficou profundamente triste, e passava a vida a pensar nele. Mas não se lembrava da gaiola, recordava apenas o dia em que o vira pela primeira vez, voando contente entre as nuvens.
Se ela se observasse a si mesma, descobriria que aquilo que a emocionava tanto no pássaro era a sua liberdade, a energia das asas em movimento, não o seu corpo físico.
Sem o pássaro a sua vida também perdeu o sentido, e a morte veio bater á sua porta. “Por que vieste?” perguntou á morte. “Para que possas voar de novo com ele nos céus”, respondeu a morte. “Se o tivesses deixado partir e voltar sempre, amá-lo-ias e admirá-lo-ias ainda mais; porém, agora precisas de mim para puderes encontrá-lo de novo.
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Paulo Coelho (Eleven Minutes)
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O mesmo acontece quando alguma cruel cilada do acaso impede o nosso inteligente e piedoso afeto de acorrer a tempo para ocultar a nossos olhares o que jamais devem contemplar, quando aquele é ultrapassado por estes, que, chegando primeiro e entregues a si mesmos, funcionam mecanicamente, à maneira de uma película, e nos mostram, em vez da criatura amada que já não existe desde muito, mas cuja morte o nosso afeto jamais quisera que nos fosse revelada, a nova criatura que cem vezes por dia ele revestia de uma querida e enganosa aparência. E como um enfermo que a si mesmo não via desde muito tempo, e que, compondo, a cada instante, o rosto, que ele não vê, segundo a imagem ideal que forma de si mesmo em pensamento, recua ao avistar no espelho, em meio de um rosto árido e deserto, a proeminência oblíqua e rósea de um nariz gigantesco como uma pirâmide do Egito, eu, para quem minha avó era ainda eu próprio, eu que jamais a vira a não ser em minh’alma, sempre no mesmo ponto do passado, através da transparência de recordações contíguas e superpostas, de súbito, em nosso salão que fazia parte de um mundo novo, o do tempo, o mundo em que vivem os estranhos de quem se diz “como envelheceu!”, eis que pela primeira vez e tão só por um instante, pois ela desapareceu logo, avistei no canapé, congestionada, pesada e vulgar, doente, cismando, a passear acima de um livro uns olhos, um olhar um pouco extraviado, a uma velha consumida que eu não conhecia.
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Marcel Proust (The Guermantes Way)
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Quando Lee tomou posição para saudar o outro com seu cumprimento de um mundo antigo e digno, o que transpareceu no olhar malicioso foi o alvoroço nu do desejo, distorcido pela dor e pelo ódio de seu corpo carente, e, em simultânea e dupla exposição, um meigo sorriso infantil de apreciação e confiança, perturbadoramente fora de hora e lugar, mutilado e desesperado.
Allerton ficou estarrecido. “Talvez seja uma espécie de tique que ele tem”, pensou. Resolveu se livrar do contato com Lee antes que o sujeito fizesse alguma coisa ainda mais desagradável. O resultado foi o de uma ruptura. Allerton não se comportou de forma hostil ou fria; no que lhe dizia respeito, Lee simplesmente não estava lá. Lee o encarou por um momento, agoniado, depois se voltou outra vez para o balcão, derrotado e abalado.
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William S. Burroughs (Queer)
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Um imenso animal leiteiro aproximou-se da mesa de Zaphod Beeblebrox. Era um enorme e gordo quadrúpede do tipo bovino, com olhos grandes e protuberantes, chifres pequenos e um sorriso nos lábios que era quase simpático.
– Boa noite – abaixou-se e sentou-se pesadamente sobre suas ancas –, sou o Prato do Dia. Posso sugerir-lhes algumas partes do meu corpo? – Grunhiu um pouco, remexeu seus quartos traseiros buscando uma posição mais confortável e olhou pacificamente para eles.
Seu olhar se deparou com olhares de total perplexidade de Arthur e Trillian, uma certa indiferença de Ford Prefect e a fome desesperada de Zaphod Beeblebrox.
– Alguma parte do meu ombro, talvez? – sugeriu o animal. – Um guisado com molho de vinho branco?
– Ahn, do seu ombro? – disse Arthur, sussurrando horrorizado.
– Naturalmente que é do meu ombro, senhor – mugiu o animal, satisfeito –, só tenho o meu para oferecer.
Zaphod levantou-se de um salto e pôs-se a apalpar e sentir os ombros do animal, apreciando.
– Ou a alcatra, que também é muito boa – murmurou o animal. – Tenho feito exercícios e comido cereais, de forma que há bastante carne boa ali. – Deu um grunhido brando e começou a ruminar. Engoliu mais uma vez o bolo alimentar. – Ou um ensopado de mim, quem sabe? – acrescentou.
– Você quer dizer que este animal realmente quer que a gente o coma? – cochichou Trillian para Ford.
– Eu? – disse Ford com um olhar vidrado. – Eu não quero dizer nada.
– Isso é absolutamente horrível – exclamou Arthur -, a coisa mais repugnante que já ouvi.
– Qual é o problema, terráqueo? – disse Zaphod, que agora observava atentamente o enorme traseiro do animal.
– Eu simplesmente não quero comer um animal que está na minha frente se oferecendo para ser morto – disse Arthur. – É cruel!
– Melhor do que comer um animal que não deseja ser comido – disse Zaphod.
– Não é essa a questão – protestou Arthur. Depois pensou um pouco mais a respeito. – Está bem – disse –, talvez essa seja a questão. Não me importa, não vou pensar nisso agora. Eu só... ahn...
O Universo enfurecia-se em espasmos mortais.
– Acho que vou pedir uma salada – murmurou.
– Posso sugerir que o senhor pense na hipótese de comer meu fígado? Deve estar saboroso e macio agora, eu mesmo tenho me mantido em alimentação forçada há meses.
– Uma salada verde – disse Arthur, decididamente.
– Uma salada? – disse o animal, lançando um olhar de recriminação para ele.
– Você vai me dizer – disse Arthur – que eu não deveria comer uma salada?
– Bem – disse o animal –, conheço muitos legumes que têm um ponto de vista muito forte a esse respeito. E é por isso, aliás, que por fim decidiram resolver de uma vez por todas essa questão complexa e criaram um animal que realmente quisesse ser comido e que fosse capaz de dizê-lo em alto e bom tom. Aqui estou eu!
Conseguiu inclinar-se ligeiramente, fazendo uma leve saudação.
– Um copo d’água, por favor – disse Arthur.
– Olha – disse Zaphod –, nós queremos comer, não queremos uma discussão. Quatro filés malpassados, e depressa. Faz 576 bilhões de anos que não comemos.
O animal levantou-se. Deu um grunhido brando.
– Uma escolha muito acertada, senhor, se me permite. Muito bem – disse –, agora é só eu sair e me matar.
Voltou-se para Arthur e deu uma piscadela amigável.
– Não se preocupe, senhor, farei isso com bastante humanidade.
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Douglas Adams (The Restaurant at the End of the Universe (The Hitchhiker's Guide to the Galaxy, #2))
“
Não havia ali ninguém. As suas palavras desvaneceram-se. Como um foguete se desvanece. As suas fagulhas, tendo traçado uma trajetória luminosa na noite, entregam-se a ela, a escuridão desce, derrama-se sobre os contornos das casas e torres; colinas sombrias a ruírem e a esfumarem-se. Mas apesar de ocultas, a noite continua cheia delas; privadas de cor, destituídas de janelas, existem mais intensamente, exprimem aquilo que a luz do dia não consegue transmitir - a inquietação a expectativa das coisas amontoadas na escuridão: aconchegadas nas trevas; despojadas do alívio que o amanhecer lhes traz quando, ao lavar as paredes de branco e cinza, ao salientar cada janela, ao erguer a neblina dos campos, mostrando as vacas vermelho-acastanhadas pacificamente a pastar, tudo volta a ser desvendado perante o olhar; tudo volta à vida.
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Virginia Woolf (Mrs Dalloway)
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Não havia ali ninguém. As suas palavras desvaneceram-se. Como um foguete se desvanece. As suas fagulhas, tendo traçado uma trajetória luminosa na noite, entregam-se a ela, a escuridão desce, derrama-se sobre os contornos das casas e torres; colinas sombrias a ruírem e a esfumarem-se. Mas apesar de ocultas, a noite continua cheia delas; privadas de cor, destituídas de janelas, existem mais intensamente, exprimem aquilo que a luz do dia não consegue transmitir - a inquietação a expectativa das coisas amontoadas na escuridão, aconchegadas nas trevas; despojadas do alívio que o amanhecer lhes traz quando, ao lavar as paredes de branco e cinza, ao salientar cada janela, ao erguer a neblina dos campos, mostrando as vacas vermelho-acastanhadas pacificamente a pastar, tudo volta a ser desvendado perante o olhar; tudo volta à vida.
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Virginia Woolf (Mrs Dalloway)
“
Hoje sabemos que nem os átomos nem os prótons e nêutrons dentro deles são indivisíveis. Assim, a questão é: quais são as partículas de fato elementares, os blocos constituintes básicos a partir dos quais tudo é feito? Como o comprimento de onda da luz é muito maior do que o tamanho de um átomo, não podemos esperar “olhar” para as partes de um átomo do modo normal. Precisamos usar algo com um comprimento de onda muito menor. Como vimos no capítulo anterior, a mecânica quântica nos diz que, na verdade, todas as partículas são ondas e que, quanto mais elevada a energia de uma partícula, menor o comprimento de sua onda. Assim, a melhor resposta que podemos dar para a nossa pergunta depende de quão elevada é a energia da partícula à nossa disposição, pois isso determina quão pequena é a escala de comprimento que podemos observar.
”
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Stephen W. Hawking (Uma breve história do tempo)
“
(…) Havia lá algo escrito a negro, que eu ainda não conhecia.
Not broken, just bent.
Levantei o dedo e passei-o sobre as linhas. O Kaden estremeceu, contudo não se moveu nem um centimetro.
- O que é isso? - perguntei num murmúrio, erguendo o olhar. O Kaden pareceu inseguro.
- As tuas palavras - respondeu, também em voz baixa. Tinha os olhos escuros e cheios de sentimento. - As palavras que me fizeram voltar a acreditar em mim mesmo, As palavras que me levaram ao limite, porque eu não conseguia imaginar que alguém me visse realmente como tu me vês. - Faltou-lhe a voz, e engoliu em seco.
Lembrei-me daquele dia junto à cascata. Da nossa conversa, de todos os sinais ocultos que ele me tinha enviado. De tudo o que ele me tinha confiado e eu lhe tinha confiado.
Tu não estás avariado, Kaden. Só um pouco empenado. Não é nada que não se possa arranjar.
”
”
Mona Kasten (Begin Again (Again, #1))
“
Abrandou o passo de corrida até parar por completo, escondendo-se na penumbra da noite com a respiração entrecortada de cansaço, uma réstia de fúria e um súbito pânico que ela lhe provocou. Também Mariana estava escondida na escuridão, mas ele sabia que se veriam, mesmo antes de se verem. Já se tocavam, sem se tocarem, e o seu olhar já se cruzava, mesmo sem se ter encontrado. Era como uma linha de comboio, dolorosamente perigosa, mas estranhamente sedutora. Sabia que pôr os pés nessa linha seria um risco de morte, mas não havia forma de saltar para fora, quando ela estava parada, à sua frente, a implorar-lhe que se aproximasse. E num segundo de luz e de vida, o comboio iluminou a linha férrea e ele viu-lhe os olhos claros a encontrarem os seus. E sorriu, verdadeiramente, pela primeira vez em muitos dias, mesmo sabendo que esse encontro, no meio da linha, seria morte na certa".
”
”
Carina Rosa (O Escultor)
“
Quando brilhou a aurora, dissolveram-se
Entre a luz as florestas encantadas
Arvoredos azuis e sombras verdes,
Como os astros da noite embranqueceram
Através da verdade da manhã.
E encontrei um país de areia e sol,
Plano, deserto, nu e sem caminhos.
Aí, ante a manhã, quebrado o encanto,
Não fui sol nem céu nem areal,
Fui só o meu olhar e o meu desejo.
Tinha a alma a cantar e os membros leves
E ouvia no silêncio os meus passos.
Caminhei na manhã eternamente.
O sol encheu o céu, foi meio-dia,
Branco a pique, sobre as coisas mortas.
Mais adiante encontrei a tarde líquida,
A tarde leve, cheia de distâncias,
Escorrendo de céus azuis e fundos
Onde as nuvens se vão pra outros mundos.
Um ponto apareceu no horizonte,
Verde nos areais como um sinal.
Era um lago entre calmos arvoredos
Não bebi a sua água nem beijei
O homem que dormia junto às margens.
E ao encontro da noite caminhei.
”
”
Sophia de Mello Breyner Andresen (Poesia)
“
Quando pensava na morte dele, que, devo dizer, não foram assim tantas vezes, sempre pensei nos termos que usaste, que todos os fios dn«entro dele se tinham quebrado. Mas há milhares de maneiras de olhar para a coisa: talvez os fios se partam, ou talvez o nosso navio afunde, ou talvez sejamos erva, as nossas raízes interdependentes de tal forma que nunca ninguém está morto enquanto alguém estiver vivo. O que quero dizer é que não nos faltam metáforas. Mas temos de ter cuidado com a metáfora que escolhemos, porque isso é importante. Se escolhemos os fios, estamos a imaginar um mundo no qual podemos ficar irreparavelmente danificados. Se escolhemos a erva, estamos a dizer que todos estamos infinitamente interligados, que podemos usar esse sistema de raízes, não só para nos compreendermos uns aos outros ma também para nos tornarmos uns nos outros. As metáforas têm implicações, percebes o que quero dizer?
”
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John Green (Paper Towns)
“
Dave tinha mordido os dois tirantes de Sol-leks até cortá-los e agora estava parado exatatamente à frente do trenó, no lugar que lhe pertencia de direito.
Suplicou com o olhar que o deixassem permanecer ali. O condutor ficou perplexo. Seus camaradas começaram a conversar sobre como um cão podia ficar magoado somente por lhe negarem o trabalho que justamente o estava matando, e lembraram de casos que tinham testemunhado ou de que haviam ouvido falar sobre cães velhos demais para trabalhar, ou afastados por causa de ferimentos, que tinham morrido ao serem desencilhados das correias. E começaram a considerar que seria um ato de misericórdia, no final das contas, deixar que Dave morresse atrelado, com o coração leve e cheio de contentamento, já que ia mesmo morrer de qualquer jeito. Assim, ele foi arreado novamente e orgulhosamente puxou como sempre fizera, embora mais de uma vez ganisse involuntariamente, ao sentir a dor da ferida que o remoía por dentro.
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Jack London (The Call of the Wild)
“
Chegando são e salvo à margem, virei-me e olhei para trás, para ver se ele ia me seguir pelo meio do mato e acabar comigo antes que eu tivesse a oportunidade de entrar na casa em que Coleman Silk passara a infância e, tal como Steena Palsson tantos anos antes, almoçar com a família dele em East Orange, o convidado branco daquele domingo. Só de olhar para ele senti o terror do trado — mesmo vendo que ele voltara a se sentar no balde: o branco gelado da lagoa, circundando uma manchinha minúscula que era um homem, o único sinal humano em toda a natureza, como o X de um analfabeto numa folha de papel. Ali estava, se não a história completa, a imagem completa. É muito raro, neste nosso final de século, a vida nos oferecer uma visão pura e tranquila como esta: um homem solitário sentado num balde, pescando através de um buraco aberto numa camada de gelo com meio metro de espessura, numa lagoa cuja água está constantemente se renovando, no alto de uma montanha bucólica na América.
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Philip Roth (The Human Stain (The American Trilogy, #3))
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A fragilidade e a pequenez assumem dimensões infinitas conforme a sua raridade, subtileza ou efemeridade. Exercitar este olhar sobre o mundo é um trabalho poético que não só lhe imprime beleza como também glorifica a mortalidade como um dom.
Perec, no seu livro "L'ínfra-ordinaire", fala precisamente da importância das pequenas coisas, da atenção que lhes devemos. Noticiam-se grandes desgraças, mas quando vemos o sol a pôr-se num cemitério de Samarcanda, é o poeta que o descreve, não é o jornalista. Os poetas vêem as intermitência da vida, os beijos que demos antes de os darmos, as garças a voar (tão intensas a pincelar o chão com as suas sombras), a chuva a bater na janela, um título esquecido de um romance imperdível, um esgar de maldade, um golo de vinho. Nenhum jornal noticia a chuva a bater na janela, isso é trabalho de um poeta. Não imaginamos a quantidade de coisas, consideradas lixo, que se podem contar ao mundo com uma beleza absurda. Aquilo que não cabe num jornal pode ser precisamente a matéria mais poética.
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Afonso Cruz (Jalan Jalan - Uma Leitura do Mundo)
“
Algumas coisas são inexplicáveis pra quem está de fora. Existem códigos secretos que só pertencem aos que partilharam a mesma mesa, o mesmo quarto, as mesmas brincadeiras, os mesmos pais. Talvez cumplicidade e camaradagem sejam as palavras certas pra definir esse tipo de amor, que começa com um "não me entrega que eu também não te entrego", e segue vida afora compreendendo os traumas ocultos, as dores disfarçadas, a raiva acumulada, a alegria infantil, a inércia justificada. Mesmo longe, as mãos se reconhecem e se apoiam. Mesmo sem palavras, o entendimento é real. E no fim das contas, é aquele olhar cúmplice ("não me dedura por favor...") que nos levanta e aquece. É aquele olhar que justifica e valida a beleza da vida, do mundo, das pessoas. E, de alguma forma que não sei dizer, traz alívio e paz.
Não posso imaginar que aquilo que dividimos há tanto tempo me apazigue como fazem essas lembranças. Nada de mim está mais lá, apenas a memória de velhos pijamas de dormir e a voz suave de mamãe contando histórias pra explicar a vida e justificar o amor.
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”
Fabíola Simões
“
Ainda tenho nos olhos a imagem de Tereza sentada num tronco, a afagar a cabeça de Karenine e a meditar no fracasso da humanidade. Ao mesmo tempo, aparece-me outra imagem: a de Nietzsche a sair de um hotel em Turim. Vê um cocheiro a vergastar um cavalo. Chega-se ao pé do cavalo e, sob o olhar do cocheiro, abraça-se à sua cabeça e desata a chorar.
A cena passava-se em 1889 e Nietzsche, também ele, já se encontrava muito longe dos homens. Ou, por outra palavras, foi precisamente nesse momento que a sua doença mental se declarou. Mas, na minha opinião, é justamente isso que reveste o seu gesto de um profundo significado. Nietzsche foi pedir perdão por Descartes ao cavalo. A sua loucura (e portanto o seu divórcio da humanidade) começa no instante em que se põe a chorar abraçado ao cavalo.
E é desse Nietzsche que eu gosto, tal como gosto de Tereza que tem ao colo a cabeça de um cão mortalmente doente e a afaga. Ponho-os um ao lado do outro: tanto um como o outro se afastam da estrada em que a humanidade, "dona e senhora da natureza", prossegue com a sua marcha sempre em frente.
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Milan Kundera (The Unbearable Lightness of Being)
“
Uma noite fiquei a dormir na tua cama, disse. Entendamo-nos, este homem é oleiro, trabalhador manual portanto, sem finezas de formação intelectual e artística tirando as necessárias ao exercício da sua profissão, de uma idade já mais do que madura, criou-se num tempo em que o mais corrente era terem as pessoas de sofrer, cada uma em si mesma e todas em toda a gente, as expressões do sentimento e as ansiedades do corpo, e se é certo que não seriam muitos os que no seu meio social e cultural poderiam pôr-lhe um pé adiante em matéria de sensibilidade e de inteligência, ouvir dizer assim de supetão, da boca de uma mulher com quem nunca jazera em intimidade, que dormiu, ela, na sua cama dele, por muito energicamente que estivesse a andar em direcção à casa onde o equívoco caso se produziu, por força haveria de suspender o passo, olhar com pasmo a ousada criatura, os homens, confessemo-lo de uma vez, nunca acabarão de entender as mulheres, felizmente que este conseguiu, sem saber bem como, descobrir no meio da sua confusão as palavras exactas que a ocasião pedia, Nunca mais dormirás noutra.
”
”
José Saramago (The Cave)
“
As mãos de Zahara apertaram fortemente a saia.
- Vais infligir-me a humilhação de ser eu a dizê-lo?
Lochan levantou-se.
- Jamais desejaria que te humilhasses. Eu sei, sei-o há já demasiado tempo.
Zahara sentiu o coração pular.
- Se o sabes, porque nunca…
- Esquece-me, Zahara, pois não sinto o mesmo – interrompeu ele.
Ela recuou.
- Mentes… Porquê? Eu sei… O modo como me tratas, como me olhas. Eu sei que gostas de mim, vejo-o no teu olhar, vejo-o neste instante!
Lochan sentiu os olhos dela mergulharem nos seus.
- Durante anos foram-me apresentados pretendentes das mais nobres famílias – ouviu – Todos me dariam o conforto a que estava habituada, todos me cobririam de jóias, de vestidos luxuosos... no entanto, eu recusava-os. Recusava-os porque não via nada no seu olhar. Para eles, eu seria como um troféu, serviria apenas para provocar inveja.
Uma nuvem cobriu o sol, deixando-os na sombra.
- Inconscientemente tornei-me arrogante, altiva, somente para os afastar de mim, para que não desejassem casar-se com alguém como eu… Mas tu, tu viste para além da máscara que construí. Naquele dia, na capital, tu viste o que ninguém foi capaz de ver: o meu coração.
- Zahara…
- Não acredito que não sintas qualquer amor por mim.
Lochan voltou-lhe as costas.
- Não quero saber se és pobre, não me importo com o teu passado. O que sinto por ti é o que sempre desejei sentir – ouviu.
O silêncio envolveu-os por momentos.
- Lamento…
Zahara correu para a frente dele. No seu olhar era visível desespero.
- Não te agrado, é isso?
Ele limitou-se a desviar o rosto.
- Responde-me!
- Como poderia ficar indiferente a alguém como tu – disse voltando a olhar nos olhos dela.
- Então porquê, porquê?
Lochan agarrou-lhe nos ombros, assustando-a.
- Esquece-me por favor. Odeia-me. Odeia-me por isto com todas as tuas forças, mas não me ames, nunca me ames, Zahara.
Lochan largou-lhe os ombros. Ela ficou sem reacção, e as lágrimas voltaram a molhar o seu rosto.
- Não me faças isto… - implorou.
O olhar dele tornou-se gélido. O seu rosto mostrava-se agora tão indecifrável, como o de uma estátua.
- Odeia-me pelo sofrimento que te acabo de causar e depois esquece-me – disse deixando-a só.
Zahara viu-o desaparecer por entre as colunas do palácio.
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Susana M. Almeida (O Renascer (Estrela de Nariën, #2))
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De início, e apesar da impressão causada pelo tiroteio, senti-me desiludido por tudo. Outrora, questionara-me repetidamente sobre o motivo de serem tão extremamente raras as pessoas que alcançavam viver por um ideal; mas agora, via que muitas, se não todas, eram capazes de morrer por um nobre fito, desde não fosse específico de si próprias e livremente eleito por cada qual. Ele deveria ser comum a todos e ter-lhes sido transmitido.
Com o passar do tempo, porém, compreendi que avaliara os homens demasiado negativamente. Apesar da uniformização que o serviço militar e o perigo exerciam sobre eles, observei muitos, tanto entre os vivos como entre os moribundos, que, de facto, se abeiravam da vontade do destino de forma magnânime. Muitos, mesmo muitos, tinham não somente durante o ataque, mas permanentemente, o olhar fixo e longínquo, quase como se estivessem possessos, um olhar que nada sabe acerca das finalidades e representa uma total entrega ao monstro.
Quaisquer que fossem as suas convicções e opiniões, eles estavam preparados, eram prestáveis e, a partir deles, seria possível configurar-se o futuro. Ainda que o mundo parecesse empedernidamente norteado para a guerra e o heroísmo, para a honra e outros altos ideais, muito embora a tonalidade de cada voz parecesse inumana e inverosímil, tudo isto não passava de uma fachada, tal como a questão acerca da finalidade aparente e dos intuitos políticos da guerra, eram pura exterioridade. Por debaixo, havia alguma coisa a gerar-se: algo como uma nova humanidade pois, em muitos, dos quais alguns morreram à minha beira, pressenti ter-se-lhes tornado sensível que o ódio e a fúria, o morticínio e a destruição, não tinham qualquer relação com os alvos para os quais eram dirigidos. Não, tanto as coisas sobre as quais se fazia pontaria como os fins a atingir eram absolutamente fortuitos. Os sentimentos, por mais recônditos e brutais que fossem, não se orientavam contra o inimigo: a sua máquina sanguinária era, somente, uma cintilação do âmago, da alma cindida, a qual ansiava por correr desvairadamente e matar, aniquilar e morrer, para lhe ser possível nascer de novo. Era um pássaro gigantesco que se esforçava por libertar-se do ovo, e o ovo era o mundo, e o mundo teria de ficar em destroços.
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Hermann Hesse (Demian)
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Repensei no corpo em desordem da professora, no corpo desgovernado de Melina. Sem uma razão evidente, comecei a olhar com atenção para as mulheres ao longo da estrada. De repente me veio a impressão de ter vivido com uma espécie de limitação do olhar: como se só fosse capaz de focalizar nosso grupo de meninas, Ada, Gigliola, Carmela, Marisa, Pinuccia, Lila, a mim mesma, minhas colegas de escola, e jamais tivesse realmente notado o corpo de Melina, o de Giuseppina Peluso, o de Nunzia Cerullo, o de Maria Carracci. O único corpo de mulher que eu tinha examinado com crescente preocupação era a figura claudicante de minha mãe, e apenas por aquela imagem me sentira perseguida, ameaçada, temendo até agora que ela se impusesse de chofre à minha própria imagem. Naquela ocasião, ao contrário, vi nitidamente as mães da família do bairro velho. Eram nervosas, eram aquiescentes. Silenciavam de lábios cerrados e ombros curvos ou gritavam insultos terríveis aos filhos que as atormentavam. Arrastavam-se magérrimas, com as faces e os olhos encavados, ou com traseiros largos, tornozelos inchados, as sacolas de compra, os meninos pequenos que se agarravam às suas saias ou queriam ser levados no colo. E, meu Deus, tinham dez, no máximo vinte anos a mais do que eu. No entanto pareciam ter perdido os atributos femininos aos quais nós, jovens, dávamos tanta importância e que púnhamos em evidência com as roupas, com a maquiagem. Tinham sido consumidas pelo corpo dos maridos, dos pais, dos irmãos, aos quais acabavam sempre se assemelhando, ou pelo cansaço ou pela chegada da velhice, pela doença. Quando essa transformação começava? Com o trabalho doméstico? Com as gestações? Com os espancamentos? Lila se deformaria como Nunzia? De seu rosto delicado despontaria Fernando, seu andar elegante se transmutaria nas passadas abertas e braços afastados do tronco, de Rino? E também meu corpo, um dia, cairia em escombros, deixando emergir não só o de minha mãe, mas ainda o do pai? E tudo o que eu estava aprendendo na escola se dissolveria, o bairro tornaria a prevalecer, as cadências, os modos, tudo se confundiria numa lama escura, Anaximandro e meu pai, Fólgore e dom Achille, as valências e os pântanos, os aoristos, Hesíodo e a vulgariadade arrogante dos Solara, como de resto há milênios acontecia na cidade, sempre mais decomposta, sempre mais degradada?
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Elena Ferrante (The Story of a New Name (Neapolitan Novels, #2))
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Da terra despedaçada pelo fogo e embebida em sangue surgem espíritos que não se deixam encantar com o silêncio dos canhões; em vez disso, influenciam de um modo estranho todas as valorizações existentes e dão-lhes um sentido modificado.
Tivessem uns reconhecido isto como uma recaída numa barbárie moderna, tivessem-no outros saudado como um banho de aço — o mais importante é ver que um afluente novo e ainda indomado de forças elementares se apoderou do nosso mundo. Sob a segurança enganadora da ordem envelhecida, que é apenas possível enquanto ainda existir o cansaço, estas forças estão demasiado próximas, são demasiado destruidoras, de tal modo que o simples olhar as poderia abarcar. A sua forma é a da anarquia, que, nos anos de uma assim chamada paz, surge nos bandos ardentes como um vulcão à superfície.
Quem aqui ainda acreditar que este processo se deixa domar através de ordens de velho estilo pertence à raça dos vencidos, que está condenada ao aniquilamento. Dá-se antes a necessidade de novas ordens em que esteja incluído o extraordinário — de ordens que não estejam calculadas para a exclusão do que é perigoso, mas criadas por um novo casamento da vida com o perigo.
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Ernst Jünger
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As sete artes liberais Atribuir a um currículo educacional um lugar no modelo do Universo pode parecer um absurdo à primeira vista; e seria um absurdo se os medievais tivessem tido o mesmo sentimento, a esse respeito, que temos quanto às matérias dos programas de ensino de hoje. Acontece que esse programa era tido como imutável; o número sete é numinoso; as Artes Liberais, por uma prescrição longa, haviam alcançado um status semelhante ao da própria natureza. As Artes, e também as Virtudes e os Vícios, eram personificados. A Gramática, com sua palmatória, está assentada com olhar altivo nos claustros de Magdalen. Dante no Convivia faz um entalhe cuidadoso das artes na estrutura do cosmo. A Retórica, por exemplo, corresponde a Vênus, pelo único motivo de que ela é "a mais amável de todas as disciplinas", soavissima di tutte le altre scienze. A Aritmética é como o Sol, pois, na medida em que este fornece luz para todas as demais estrelas, ela também fornece luz a todas as outras ciências, e como nossa visão fica turvada pela ação de sua luz intensa, da mesma forma nossa inteligência fica perplexa com a infinidade de números. E assim ocorre com as outras [matérias] (li, xiii),
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C.S. Lewis (The Discarded Image: An Introduction to Medieval and Renaissance Literature)
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Amava Aida desde sempre, o nosso encontro aconteceu na eternidade. Só assim eu entendo que não saiba contar bem como tudo começou. Porque os factos não são indício de nada e o verdadeiro indício está antes e depois de todos os indícios. Há a minha infância, há a morte da minha mãe, mas no que se passa em mim estou só eu. E é dessa solidão absoluta que o absurdo nasceu. Rapidamente ultrapassei os limites da plenitude de um encontro que se basta, de duas mãos que se prendem, de dois olhares que se fitam. Rapidamente me interroguei sobre quem estava atrás desse olhar e dessas mãos e quis chegar até lá... É tão difícil explicar. É tão difícil e tão alto e tão fora da nossa medida, que estremeço de loucura e as minhas palavras se atropelam. Mas isto existe, como é possível que seja um erro? Há um além para lá de ti, da pessoa que vejo e está aqui e que é a pessoa que és. Trago em mim o apelo absoluto da identidade absoluta, a exigência da comunhão verdadeira. Porque eu sou de mais para mim - e tu. Jamais te saberei? Jamais tocarei com as minhas mãos a chama que arde em ti? Estamos cheios de prodígio, não é estúpido que o ignoremos? Para lá de todas as portas há uma porta ainda, e essa é que é a porta da nossa morada...
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Vergílio Ferreira (Estrela Polar)
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A mão e o pé japoneses - parte I
Pousada é um deleite. Em movimento, na mímica trivial dos seus misteres, é uma pasmosa revelação de estética asiática, na sua feição mais transcendente, que escraviza os nossos olhos, e quantas vezes os nossos corações!...Segundo a clássica e lendária compreensão dos fenómenos psíquicos desta gente, indica-se que a coragem reside na barriga, a paixão no coração, o raciocínio na cabeça; e admite-se que, por uma rigorosa disciplina educativa, a alma nipónica pode localizar-se de preferência em qualquer destes centros que indiquei.
Sendo assim e convindo que a mulher japonesa seja particularmente educada para o enlevo do lar, para o arranjo das pequeninas coisas domésticas, para o carinho da família, eu quero que a alma dela resida nas pontas dos seus dedos. Nisto creio;e asseguro que não há maior encanto, debaixo de um ponto de vista estético, do que seguir com o olhar o gesto meigo da filha do Nippon, nas suas ocupações comezinhas, preparando o chá, penteando-se, colhendo flores ou insectos, tocando no shamicen, afagando um filho ou um irmão... - Um tal encanto tende a transformar-se em culto; e chegamos até a invejar os mortos, por cuja bem-aventurança, junto do altar dos antepassados, quotidianamente aquela mão se eleva em prece fervorosa.
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Wenceslau de Moraes (Antologia)
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Porque, não importa o que diga, a linha sobre a qual caminhava, de recta que talvez fosse, tinha passado a curva desde que me viu, e eu apercebi-me do momento exacto em que me viu pelo momento exacto em que o seu caminho se tornou curvo, e não uma curva que o afastasse de mim, mas uma curva para vir ter comigo, senão nunca nos teríamos encontrado, mas teria antes afastado ainda mais de mim, porque você estava à andar à velocidade de alguém que caminha de um ponto para outro; e eu nunca o teria apanhado porque eu só caminho lentamente, calmamente, quase imóvel, com o passo de alguém que não vai de um ponto para o outro mas que, num lugar imutável, espreita quem passa à sua frente e espera que modifique ligeiramente o seu percurso. E se eu digo que fez uma curva, e como sem dúvida há-de dizer que era um desvio para me evitar, ao que eu afirmarei, em resposta, que foi um movimento para se aproximar, sem dúvida que isso é assim porque no fim de contas você não se desviou, que qualquer linha recta só existe em relação a um plano, que nós nos movemos segundo dois planos distintos, e que no fim de contas só existe o facto que você olhou para mim e que eu interceptei esse olhar ou o inverso, e que, à partida, de absoluta que era, a linha segundo a qual você se movia tornou-se relativa e complexa, nem recta nem curva, mas fatal.
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Bernard-Marie Koltès (Dans la solitude des champs de coton)
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O tempo que nos resta
"De súbito sabemos que é já tarde.
Quando a luz se faz outra, quando os ramos da árvore que somos soltam folhas
e o sangue que tínhamos não arde como ardia, sabemos que viemos e que vamos.
Que não será aqui a nossa festa.
De súbito chegamos a saber que andávamos sozinhos.
De súbito vemos sem sombra alguma que não existe aquilo em que nos apoiávamos.
A solidão deixou de ser um nome apenas.
Tocamo-la, empurra-nos e agride-nos. Dói.
Dói tanto!
E parece-nos que há um mundo inteiro a gritar de dor,
e que à nossa volta quase todos sofrem e são sós.
Temos de ter, necessariamente, uma alma.
Se não, onde se alojaria este frio que não está no corpo?
Rimos e sabemos que não é verdade.
Falamos e sabemos que não somos nós quem fala.
Já não acreditamos naquilo que todos dizem.
Os jornais caem-nos das mãos.
Sabemos que aquilo que todos fazem conduz ao vazio que todos têm.
Poderíamos continuar adormecidos, distraídos, entretidos.
Como os outros.
Mas naquele momento vemos com clareza que tudo terá de ser diferente.
Que teremos de fazer qualquer coisa semelhante a levantarmo-nos de um charco.
Qualquer coisa como empreender uma viagem até ao castelo distante
onde temos uma herança de nobreza a receber.
O tempo que nos resta é de aventura. E temos de andar depressa.
Não sabemos se esse tempo que ainda temos é bastante.
E de súbito descobrimos que temos de escolher aquilo que antes havíamos desprezado.
Há uma imensa fome de verdade a gritar sem ruído,
uma vontade grande de não mais ter medo,
o reconhecimento de que é preciso baixar a fronte e pedir ajuda.
E perguntar o caminho.
Ficamos a saber que pouco se aproveita de tudo o que fizemos,
de tudo o que nos deram, de tudo o que conseguimos.
E há um poema, que devíamos ter dito e não dissemos, a morder a recordação dos nossos gestos.
As mãos, vazias, tristemente caídas ao longo do corpo.
Mãos talvez sujas. Sujas talvez de dores alheias.
E o fundo de nós vomita para diante do nosso olhar aquelas coisas
que fizemos e tínhamos tentado esquecer.
São, algumas delas, figuras monstruosas, muito negras,
que se agitam numa dança animalesca.
Não as queremos, mas estão cá dentro.
São obra nossa.
Detestarmo-nos a nós mesmos é bastante mais fácil do que parece,
mas sabemos que também isso é um ponto da viagem
e que não nos podemos deter aí.
Agora o tempo que nos resta deve ser povoado de espingardas.
Lutar contra nós mesmos era o que devíamos ter aprendido desde o início.
Todo o tempo deve ser agora de coragem. De combate.
Os nossos direitos, o conforto e a segurança? Deixem-nos rir...
Já não caímos nisso! Doravante o tempo é de buscar deveres dos bons.
De complicar a vida.
De dar até que comece a doer-nos.
E, depois, continuar até que doa mais.
Até que doa tudo.
Não queremos perder nem mais uma gota de alegria,
nem mais um fio de sol na alma,
nem mais um instante do tempo que nos resta."
Miguel Gonçalves
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eu
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O outro não é apenas um duplo especular, ao modo de um espelho do Eu. Para começar, o outro tem dois olhos, não apenas um. Então em qual ponto de vista devemos nos colocar? Se os olhos piscam ao mesmo tempo, a imagem permanece ainda que não esteja em presença. Mas, se alternamos o piscar entre um olho e outro, o objeto começa a se movimentar, em função de um efeito de ilusão chamado paralaxe. Ou seja, o fato de nós termos uma visão binocular e supormos no outro um único ponto de vista corresponde a uma diferença estrutural entre o eu e o outro. Isso ocorre também porque há um ponto de ausência na visão, bem no centro do cone ótico, chamado mácula. Além disso, a visão, tomada nesse sentido geométrico, equivale à audição, não à escuta. Para escutar e não só ouvir, assim como olhar e não só ver, é preciso subtrair a representação antecipada que fazemos do outro, da imagem, e que não é uma ilusão ótica, mas uma ilusão cognitiva. Quando alguém começa a aprender a arte do desenho, uma das primeiras lições, e talvez a mais importante, no sentido inaugural, é que você deve se ater ao que objetivamente está vendo, não ao que se “sabe” sobre o formato de uma maçã ou das arestas de um cubo.
Isso significa que, para que os dois olhos colaborem na apreensão de uma única imagem, é preciso pensar a partir do quadro, colocar-se no lugar do outro, mas também supor o que o quadro “ignora” sobre sua própria composição. Por exemplo, o tamanho, a disposição e a distribuição dos volumes impõem involuntariamente ao observador que se coloque no ponto exato em que o quadro forma uma boa imagem. Se nos colocamos a menos de um palmo ou a mais de cem metros da Mona Lisa, sua experiência estética simplesmente será outra. Ocorre que, nesse ponto, ao qual nos ajustamos automaticamente – como ajustamos a distância exata à qual um bebê é capaz de formar seu foco visual, sem que ninguém tenha nos ensinado isso –, emerge outro fenômeno: nos vemos sendo vistos. Nossa percepção é a de que fazemos parte da tela e estamos imersos no espaço do museu. Ou seja, recebemos nossa própria imagem, que nos enxerga ali onde não nos vemos. É assim também com a escuta. Reconhecemos o que o outro não escuta, o que ele mesmo diz, e não adianta simplesmente dizer isso, gritar ou se exasperar, porque ele não escuta. E isso acontece porque, no fundo, “não pode escutar”, pois aquilo foi feito para ficar nessa zona cinzenta do não escutado.
Não obstante, há restos – penumbras, zonas de transição, rastros daquilo que não se escuta perfeitamente –, mas que se denunciam como ruídos, particularmente em distorções, exageros, inibições e excepcionalidades da sua expressividade. O senso comum tenta eliminar tais ruídos entendendo que atrapalham a funcionalidade das relações. A psicanálise dá atenção a essas bobagens e imperfeições comunicativas, pois presume que nelas falta o que não pode ser realmente escutado e que de fato está determinando impasses relacionais.
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Christian Dunker (A arte de amar (Portuguese Edition))
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Ele aproxima-se dela. Pergunta-lhe de que descansa, que cansaço é aquele. Sem responder, sem mesmo olhar, ela levanta a mão e acaricia-lhe o rosto por cima dela, os lábios, o contorno dos lábios, ali onde gostaria de beijar; o rosto resiste, ela continua a acariciar, os dentes serram-se, o rosto recua. E a mão dela cai.
Ele pergunta se é a esse contrato que ele fez da presença dela perto dele que ela chama sono. Ela hesita e diz que talvez, sim, que é assim que ela deve ter entendido a coisa, ou seja, que ele desejava tê-la perto mas escondida pelo sono, com o rosto anulado pela seda preta como se fosse por outro sentimento.
Ele ri, confuso por ter percebido a que ponto a conivência entre os dois era grande. Depois bruscamente vê que ela já não ri, que o deixa, que o olha como se ele fosse adorável, ou estivesse morto. E depois vê que ela regressa. Ainda tem no olhar um brilho de perdição que acaba de atravessar na presença dele.
Não falam daquele medo. Ela sabe menos do que ele que se passou qualquer coisa.Ficam muito tempo longe um do outro, tentando reencontrar o que aconteceu quando se olharam, esse terror de que ainda não tinham nenhum conhecimento.
Ela diz que sempre que ele fala em se ir embora ela ouve os cães da morte na cabeça e à volta da casa.
Ela pergunta-lhe: Para o estrangeiro, fazer o quê? Ele não sabe, talvez nada, talvez um livro. Talvez encontrar alguém. Espera como se fosse por um último encontro antes de morrer.
Ela dorme. Ele fala-lhe enquanto ela dorme.
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Marguerite Duras (Blue Eyes, Black Hair)
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Você conheceu algum poema-veneno que faria explodir minha prisão num maço de miosótis? Uma arma que mataria o rapaz perfeito que mora em mim e me obriga a asilar todo um aglomerado de animais?
As andorinhas se aninham debaixo de seus braços. Aí elas construíram um ninho de terra seca. Lagartas de veludo cor de tabaco mesclam-se nos cachos dos seus cabelos. Sob seus pés um enxame de abelhas, e ninhadas de víboras atrás dos seus olhos. Nada o emociona. Nada o perturba a não ser as meninas fazendo a primeira comunhão, pondo a língua para o padre, ajuntando as mãos, baixando os olhos. Faz frio como na neve. Sei que ele é sorrateiro. O ouro mal o faz sorrir, mas se ele sorrir, terá a graça dos anjos. Que cigano seria suficientemente veloz para livrar-me dele com um punhal inevitável? É necessário velocidade, uma boa pontaria, uma bela indiferença. E... o assassino ocupou seu lugar. Voltou esta manhã de uma volta pelas espeluncas onde viu marinheiros, putas, uma delas deixou no seu rosto o traço de uma mão sangrenta. Ele pode partir para bem longe mas é fiel como um pombo. Outra noite, uma velha atriz colocou uma camélia na sua lapela.
Eu quis amassá-la: as pétalas caíram sobre o tapete (mas que tapete? Minha cela é pavimentada de pedras achatadas) em grossas gotas de água transparentes e mornas. Agora, apenas ouso olhar para ele, pois meus olhos atravessam sua carne de cristal e estes ângulos rígidos perfazem tantos arcos-íris que eis por que choro. Fim.
Pode não parecer grande coisa para vocês, mas este poema me aliviou. Eu o caguei.
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Jean Genet (Our Lady of the Flowers)
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… há uma idéia de um Patrick Bateman, uma espécie de abstração, mas não existe um eu real, apenas uma entidade, algo ilusório, e embora eu possa esconder meu olhar frio e você possa apertar minha mão e sentir a carne apertando a sua e talvez você possa até pensar que podemos comparar nossos estilos de vida, eu simplesmente não estou aqui. É difícil para mim fazer sentido em qualquer nível dado. Meu eu é inventado, uma aberração. Sou um ser humano nada contingente. Minha personalidade é vaga e informe, minha falta de sentimento é profunda e persistente. Minha consciência, minha piedade, minhas esperanças desapareceram há muito tempo (provavelmente em Harvard), se é que jamais existiram. Não há nenhuma outra barreira a ser vencida. Tudo que tenho em comum com o incontrolável e o insano, o cruel e o mal, todo o horror que causei e minha total indiferença a ele, já superei. Porém, acredito ainda numa terrível verdade, ninguém está a salvo, nada é redimido. Contudo, sou isento de culpa. Devemos pressupor uma validade para cada modelo de comportamento humano. Você é o mal? Ou é alguma coisa que você faz? Minha dor é aguda e constante e não espero um mundo melhor para ninguém. Na verdade, posso desejar muita dor para os outros. Não quero que ninguém escape. Mas, mesmo depois de admiti-lo – e já o admiti muitas vezes, quase em todos os atos que cometi –, e enfrentando essas verdades, não há catarse. Não adquiro um conhecimento mais profundo a meu respeito, nenhuma nova compreensão pode ser tirada se eu contar para alguém, Não há nenhuma razão para que conte tudo isto. Esta confissão não significa coisa alguma…
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Bret Easton Ellis (American Psycho)
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Como se me afiguravam felizes e satisfeitos todos aqueles homens que eu encontrava no meu caminho! A vida, na verdade, era para eles como uma imensa sala de baile. Nem a sombra de uma preocupação nos seus olhares nem a mais leve aparência de cansaço nos seus gestos! Nunca, talvez, um pensamento inquietante, uma angústia misteriosa lhes teria perturbado as almas! E ao lado desta humanidade que se cruzava comigo, eu, jovem, quase virgem de experiência, já esquecera o que era felicidade! Lutei com este pensamento até me persuadir de que se cometia comigo uma cruel injustiça. Por que tinham sido os últimos meses tão terrivelmente duros para mim? Nem já me reconhecia tão pertinaz caíra sobre mim todo o gênero de inesperadas preocupações! Não me era possível sentar-me num banco, ir a qualquer parte, fosse onde fosse, sem ser vítima de imprevistas casualidades, de angustiosas humilhações que me obcecavam a imaginação e dispersavam aos quatro ventos as minhas resoluções. (...)
Continuando a analisar a minha vida, acabei por me convencer de que o fato de ter sido eu o eleito para expiar as faltas comuns da Humanidade constituía um ato arbitrário de Deus Nosso Senhor. Mesmo depois de ter encontrado um banco e de me sentar, ainda me obcecavam as sugestões desse pensamento, a ponto de me impedirem qualquer outra reflexão. Desde aquele dia de maio, em que haviam começado as minhas adversidades, era-me impossível seguir facilmente o rasto das minhas progressivas fraquezas. Empalideci subitamente e as minhas forças dificilmente continuaram concordando com os meus desejos, era como se um enxame de insetos mordedores e teimosos tivessem feito ninho no meu espírito.
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Knut Hamsun (Hunger)
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A gente sai do hospital com um filho nos braços, o título e a alma de mãe, uma vontade imensa de acertar e o comportamento de quem ainda tem chão pela frente.
Existe um processo de se tornar mãe. E ee não acontece no parto.
Antropologistas o chamam de matrescência.
Eu não sei nem descrever o quão maravilhoso foi encontrar essa palavra.
A psiquiatra Alexandra Sack, que fala sobre o tema como ninguém, conta que não é por acaso que a palavra matrescência se parece tanto com adolescência. Ambos são períodos de mudanças dramáticas no corpo, nos hormônios, nos sentimentos, na maneira como nos enxergamos e processamos emoções. A diferença é que todos sabem que a adolescência é intensa e difícil.
Não temos o mesmo olhar quando o assunto é se tornar mãe.
Carregamos expectativas irreais. Recebemos o recém-nascido achando que o instinto saberá de tudo e que o desejo de colocar as necessidades do bebê em primeiro lugar será constante.
Só quem já ficou acordada por noites e noites entende que não é bem assim. Conhece o impasse interno. Somos todas mães e vocês sabem do que estou falando.
Na matrescência, as pessoas esperam que você aja com maturidade, que encare serena o abrir mão do controle da própria vida, do ritmo, do mundo como conhecia.
Mas não é tão simples. A Dra. Alexandra descreve como um "empurra e puxa".
A ocitocina, hormônio que aumenta cada vez que você carrega, beija e cheira o seu bebê, avisa o cérebro que isso é amor. E que é dos grandes! Alertando sobre a importância daquele serzinho na sua vida.
Por outro lado, nessa mesma mente, há lembranças recentes da vida como ela era. Da identidade que você levou anos e anos para construir e da segurança que isso traz. Do cotidiano, dos relacionamentos, das coisas que, de forma abrupta, abriu mão.
É uma luta real, não é hipotética. Sua com você mesma. Exige humildade, coragem, resiliência. E tempo. Sempre ele, o tempo.
Trazer uma mãe ao mundo é tão desafiador quanto cuidar de um bebê. Agora imagine fazer os dois simultaneamente.
Isso é matrescência.
É entrar em uma nova realidade. Um lugar em que cabe a mulher, em que cabe a mãe e em que nasce o doce espaço onde elas se misturam.
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Rafaela Carvalho
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«Sabe, meu amor, que te amo. E que te amarei até morrer. É por isso que todo o resto me parece tão pouco, um nada imenso de nenhum valor. Sabe que te choro e te venero, e sobretudo que te espero. E sabe que te vejo, com olhos de quem vê, e que te conheço, como só conhece um livro quem o lê. Sabe que à amargura dos dias subtraí a doçura de te ter. Sim, o cintilar da vida, ao meu redor, por te ter. Por saber-te nunca muito longe, embora raramente aqui. por saber que, nos teus olhos - laivos de mel e coisas mais profundas, lucidez e racionalidade - leio que também me lês. Deslizemos agora para o silêncio, perfeição. Não vejo já necessidade de prender a tua mão, pois que sinto que te prendi. Ao teu olhar, que se enreda no meu. que estranhas asas povoam as minhas entranhas, murmuram a meus ouvidos. que grande és, que tola sou. Sabe, meu amor, que tenho plena consciência das nossas dimensões. Basta-me ter-te assim, como te tenho, para seguir pela vida a sorrir. Em mim não se apagarão mais luzes, em mim, à noite, acendem-se as estrelas. Fosse eu firmamento, e tu o cimento com que se constrói o mundo. Sem nós, nada. Reservatório de tudo. Conheço-te, milagre maior, e tenho-te, não podia ter-te melhor. Porque caminhas a meu lado, não acorrentado a mim. Porque me beijas a testa e porque te louvo as mãos. Homem honesto. Amor maior. Porque me guias na escuridão das ingenuidades - resquícios da infância - e porque não me apontas caminhos, descreves-me paisagens. Sim e não, talvez e também. Veremos o que dali vem. E eu, a teu lado, que tola sou, pequena e feliz, que feliz é quem amou assim um grande amor. Ecos de palavras, distantes. Que importa se não somos amantes? Se nunca o seremos? Sei que te amo e, nalguma linguagem, sei que me amas também. Se é na matemática dos racionais, se na pureza dos amigos, se no secretismo dos poetas, isso não sei. Sei que te carrego em mim e que, se fechar os olhos, me sorris. Estás comigo a todo o instante. Não te guardo em caixas, fotografias ou objectos. Caberias lá tu em caixas, mundo, permanecerias lá tu imóvel, como os objectos, vida. Quanto muito, vejo-te às vezes num livro cá por casa. Mas sei-te, e sei-te quase de cor. Não quero saber-te, na totalidade ou de cor. Não o poderia, é inalcançável. Tão grande és tu, que não acabas. Em mim nunca acabarás. A felicidade que a tua volta me trouxe. E sabe que vou chorar, «a cada ausência tua eu vou chorar». Mas não lágrimas; é paixão, fogo, urgência. Coisa física, átomos de energia em colisão. Ainda assim, ter-te-ei aqui, para seguir pela vida a sorrir. A cada vez que afastar os lençóis, pedir-te-ei que te chegues para lá. E ainda que a tua boca nunca sobre a minha pouse, e ainda que nunca venhas a sorrir enquanto te beijo, sabe, meu amor, que te amo, e que te amarei até morrer. Com a certeza de quem quer viver, de quem quer seguir, a vida inteira, com a alma enredada na tua. Que o teu chá seja fervido da minha chaleira, e que os teus livros disputem com os meus o espaço da prateleira. Meu amor, sabe que te amarei a vida inteira.»
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Célia Correia Loureiro (Os Pássaros)
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(Página 45)
"A enfermaria zumbe da maneira como ouvi uma fábrica de tecido zumbir uma vez, quando o time de futebol jogou com a escola secundária na Califórnia. Depois de uma boa temporada, s promotores da cidade estavam tão orgulhosos e exaltados que pagavam para que fôssemos de avião até a Califórnia para disputar um campeonato de escolas secundárias com o time de lá. Quando chegamos à cidade tivemos de visitar um indústria local qualquer. Nosso treinador era um daqueles dados a convencer as pessoas de que o atletismo era educativo por causa do aprendizado proporcionado pelas viagens, e em todas as viagens que fazíamos ele carregava com o time para visitar fábricas de laticínios, fazendas de plantação de beterraba e fábricas de conservas, antes do jogo . Na Califórnia foi uma fábrica de tecido. Quando entramos na fábrica, a maior parte do time deu uma olhada rápida e saiu para ir sentar-se no ônibus e jogar pôquer em cima das malas, mas eu fiquei lá dentro numa canto, fora do caminho das moças negras que corriam de um lado para o outro entre as fileiras de máquinas.
A fábrica me colocou numa espécie de sonho, todos aqueles zumbidos e estalos a chocalhar de gente e de máquinas sacudindo-se em espasmos regulares. Foi por isso que eu fiquei quando todos os outros se foram, por isso e porque aquilo me lembrou de alguma forma os homens da tribo que haviam deixado a aldeia nos últimos dias para ir trabalhar na trituradora de pedras para a represa. O padrão frenético, os rostos hipnotizados pela rotina... eu queria ir com o time, mas não pude.
Era de manhã, no princípio do inverno, e eu ainda usava a jaqueta que nos deram quando ganhamos o campeonato - uma jaqueta vermelha e verde com mangas de couro e um emblema com o formato de uma bola de futebol bordado nas costas, dizendo o que havíamos vencido - e ela estava fazendo com que uma porção de moças negras olhassem. Eu a tirei , mas elas continuaram olhando. Eu era muito maior naquela época. "
(Página 46)
"Uma das moças afastou-se de sua máquina e olhou para um lado e para o outro das passagens entre as máquinas, para ver se o capataz estava por perto, depois veio até onde eu estava. Perguntou se íamos jogar na escola secundária naquela noite e me disse que tinha um irmão que jogava como zagueiro para eles. Falamos um pouco a respeito do futebol e coisas assim, e reparei como o rosto dela parecia indistinto, como se houvesse uma névoa entre nós dois. Era a lanugem de algodão pairando no ar.
Falei-lhe a respeito da lanugem. Ela revirou os olhos e cobriu a boca com a mão, para rir, quando eu lhe disse como era parecido com o olhar o seu rosto numa manhã enevoada de caça ao pato. E ela disse : " Agora me diga para que é que você quereria nesse bendito mundo estar sozinho comigo lá fora, numa tocaia de pato ?" Disse-lhe que ela poderia tomar de conta da minha arma, e as moças começaram a rir com a boca escondida atrás das mãos na fábrica inteira. Eu também ri um pouco, vendo como havia parecido inteligente. Anda estávamos conversando e rindo quando ela agarrou meus pulsos e os apertou com as mãos. Os traços do seu rosto de repente se acentuaram num foco radioso; vi que ela estava aterrorizada por alguma coisa.
- Leve-me - disse ela num murmúrio - Leve-me mesmo garotão. Para fora desta fábrica aqui, para fora desta cidade, para fora desta vida. Me leva para uma tocaia de pato qualquer, num lugar qualquer . Num outro lugar qualquer. Hem garotão, hem ?
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Ken Kesey (One Flew Over the Cuckoo’s Nest)
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As dimensões do universo medieval não são tão facilmente percebidas, ainda hoje, quanto a sua estrutura; em meu próprio tempo de vida, um cientista distinto ajudou a disseminar um erro. 14 O leitor deste livro já deve estar sabendo que a Terra era, a julgar por padrões cósmicos, um pontinho - de nenhuma magnitude significativa. E como o Somnium Scipionis nos ensinou, as estrelas eram maiores do que ela. Isidoro já sabia no século VI que o Sol é maior, e a Lua, menor do que a Terra. (Etymologies, III, xlvii-xl- viii); Maimônides,15 no século XII, sustenta que cada estrela é noventa vezes maior; Roger Bacon, no século XIII, declara que a menor estrela é "maior" do que ela. 16 Quanto às estimativas da distância, contamos com a sorte de ter o testemunho de uma obra completamente popular, Lendas do Sul da Inglaterra, uma prova melhor do que qualquer produção pesquisada, em favor do Modelo, como ele existia no imaginário de pessoas comuns. Diz-se ali que se um homem fosse capaz de viajar para o alto, numa velocidade de quarenta milhas17 e um pouco mais por dia, ele ainda assim não conseguiria alcançar o Stellatum ("o mais alto céu que jamais se viu") em oito mil anos. 18 Esses fatos são em si curiosidades de interesse medíocre. Eles se tornam acessíveis, apenas à medida que nos permitem penetrar mais fundo na consciência dos nossos ancestrais, dando-nos conta de como um universo assim deve ter afetado aqueles que acreditavam nele. A receita para tal compreensão não é o estudo de livros. Você terá de sair numa noite estrelada e caminhar por aproximadamente meia hora, tentando examinar o céu em termos da velha cosmologia. Lembre-se de que agora você tem um "para cima" e um "para baixo" absolutos. A Terra é, de fato, o centro, o lugar mais baixo; o movimento para chegar a ela, de qualquer direção que seja, é um movimento para baixo. Como homem moderno, você localizava as estrelas a uma grande distância. Agora terá de substituir essa distância por um tipo de distância muito especial e muito menos abstrata chamada altura; Os Céus 1 103 que fala imediatamente aos nossos músculos e nervos. O Modelo Medieval é vertiginoso. E o fato de que a altura das estrelas na astronomia medieval é muito pequena comparada às distâncias modernas acabará se manifestando como não tendo o tipo de importância que você supunha. Para o pensamento e a imaginação, dez milhões de milhas e um bilhão são a mesma coisa. Ambas podem ser concebidas (isto é, podemos fazer contas com ambas) e nenhuma delas pode ser imaginada; e quanto mais imaginação tivermos, melhor deveríamos saber disso. A diferença realmente importante é que o universo medieval, ao mesmo tempo que era inimaginavelmente grande, também era indubitavelmente finito. E um resultado inesperado disso foi o de fazer com que a pequenez da Terra fosse sentida com mais vivacidade. Em nosso Universo ela é pequena, sem dúvida; mas as galáxias e tudo o mais também são - e daí? Mas para eles havia um padrão finito de comparação. A esfera celeste mais alta, o maggior corpo de Dante, era tão simples e finalmente o maior objeto existente. A palavra "pequeno" aplicada à Terra assume, então, uma significância bem mais absoluta. Repito, pelo fato de o universo medieval ser finito, ele adquire uma forma, a forma perfeitamente esférica, que contém em si uma diversidade ordenada. Consequentemente, olhar para fora numa noite escura com olhos modernos é como olhar para o mar, que vai minguando num dia de nevoeiro; ou olhar para uma floresta virgem - infindáveis árvores sem nenhum horizonte. Vislumbrar o universo medieval altaneiro é mais como visualizar um prédio bem alto. O "espaço" da astronomia moderna pode infligir terror, espanto ou um vago devaneio; as esferas celestes dos medievais nos apresentam um objeto no qual a mente pode repousar, impressionando por sua grandeza, mas satisfazendo por sua harmonia. Esse é o sentido pelo qual o nosso universo é romântico, e o deles era clássico.
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C.S. Lewis (The Discarded Image: An Introduction to Medieval and Renaissance Literature)
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O pé japonês
“Falemos dos pés agora. O assunto é ainda mais interessante, pelo contraste que oferece com esses outros membros, atrofiados ou repelentes, da gente ocidental, que pés também se denominam. Se a mão japonesa é um enlevo, o pé é outro enlevo. (…)
Agora, naturalmente, vamos pousar o olhar sobre os pés da musumé; pousar é o termo próprio, como uma borboleta amorosa vai pousar sobre a corola de uma açucena. Naturalmente, pelos mimos do sexo, o pé da japonesa é mais gentil que o pé do nipónico; e quando a japonesa vive uma existência suficientemente recatada para poder esquivar-se aos poderes das intempéries (…), o seu pé nu, sobre a esteira doméstica e assente sobre a gheta gentil se sai para a rua, apresenta de ordinário uma extrema graciosidade, que qualquer explicação verbal não lograria definir. Para o estrangeiro recém-chegado, esta ponta de nudez inesperada, que surde da fímbria da seda do quimono, é encantadora; os gestos deste pé, as curvas ocasionais em que se requebra, a sua verdadeira mímica não só encantam, mas assombram, como uma intensíssima revelação estética, de que a Europa nem sequer nos oferece um vislumbre fugidio…por causa dos mofinos sapateiros!...”
Wenceslau de Moraes, in Antologia
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Wenceslau de Moraes (Antologia)
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E assim, com os males reais sendo invisibilizados e apagados, tudo continua como está. E aqueles que gritam seguem cimentados na mesma posição na pirâmide social.
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Eliane Brum (Brasil, construtor de ruínas: Um olhar sobre o Brasil, de Lula a Bolsonaro (Portuguese Edition))
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Mesmo que isso não seja óbvio para todos, é a arte que expande a nossa consciência mais do que qualquer outra experiência, justamente por deslocar o lugar do real. Ao fazer isso, ela amplia a nossa capacidade de enxergar além do óbvio.
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Eliane Brum (Brasil, construtor de ruínas: Um olhar sobre o Brasil, de Lula a Bolsonaro (Portuguese Edition))
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Não há nada mais perigoso para a manutenção dos privilégios e do controle de poucos sobre muitos do que a arte.
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Eliane Brum (Brasil, construtor de ruínas: Um olhar sobre o Brasil, de Lula a Bolsonaro (Portuguese Edition))
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Um dos aspectos mais incompreendidos da vida egípcia é a sua veneração pelos gatos, cujos corpos mumificados foram encontrados aos milhares. A minha teoria é a de que o gato foi o modelo para a ímpar síntese de princípios levada a cabo pelos egípcios. O gato moderno, o último animal a ser domesticado pelo homem, descende de um gato selvagem do Norte da África, Felis Lybica. Os gatos são vagabundos e misteriosas criaturas da noite. Crueldade e jogo são para eles a mesma coisa. Eles vivem do e para o medo, quando brincam gostam de se fingir assustados ou de assustar as pessoas com súbitas investidas e emboscadas. Os gatos habitam no oculto, isto é, no esconso. Na Idade Média, eram perseguidos e mortos por serem associados as bruxas. Injusto? Mas o gato realmente está ligado à natureza ctónica, inimiga mortal do cristianismo. O gato negro do Haloween é a vagarosa sombra da noite arcaica. Capazes de dormir até vinte horas por dia, os gatos reconstroem e habitam o primitivo mundo das trevas. O gato é telepático – ou pelo menos acha que é. Há muita gente que se inquieta com o seu olhar frio. Comparados com os cães, servilmente desejosos de agradar, os gatos são autocratas e puramente egoístas. São ao mesmo tempo amorais e imorais, quebram conscientemente as regras . O seu olhar <> não é uma projecção humana: é possível que o gato seja o único animal que sugere perversidade ou que nela se reflecte.
O gato é pois um iniciado nos mistérios ctónicos. Mas há nele uma dualidade hierática. Possui um olhar intenso. No gato fundem-se o olhar devorador da Górgona e o olhar distante da contemplação apolínea. É um animal que aprecia a invisibilidade, imaginando-se comicamente indetectável enquanto avança agachado sobre um jardim. Mas também adora ver e e ser visto; é um espectador do drama da vida, divertido e condescendente. É um narcisista, sempre a cuidar da aparência. Quando tem o pelo desgrenhado,o gato mostra-se abatido. Os gatos têm um sentido da composição pictórica: sentam-se de forma simétrica nas cadeiras, tapetes, mesmo num pedaço de papel caído no chão. Seguem uma métrica apolínea do espaço matemático. Altivos, solitários, precisos, eles são árbitros da elegância – um princípio que considero originário do Egipto.
Os gatos gostam de posar. Possuem um sentido da persona – e ficam visivelmente embaraçados quando a realidade belisca a sua dignidade. Os macacos são mais humanos, mas menos bonitos; tem posturas, mas nunca posam. Sentados, de cócoras, palrando, batendo no peito, de rabo descoberto, os macacos são novos-ricos presunçosos que avançam tropegamente pela estrada da evolução. As sofisticadas personas dos gatos são máscaras de uma teatralidade evoluída. Sacerdote e deus do seu próprio culto, o gato segue um código de pureza ritual, lavando-se religiosamente. Realiza sacrifícios pagãos a si mesmo e é capaz de partilhar as suas cerimónias com os eleitos. É frequente o dia do dono de um gato começar com a visão, à porta de casa, de um metódico montinho de tripas ou membros mastigados de ratos – mementos darwinianos. De todos os habitantes de uma casa o gato é o menos cristão.
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Camille Paglia
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- Filhinha, se você confunde a poesia com a política, não demora muito a ser mãe solteira. O que te disse ele?
Beatriz tinha a palavra na ponta da língua, mas temperou-a uns segundos com a sua quente saliva.
– Metáforas.
A mãe agarrou-se à maçaneta da sua rústica cama de bronze, apertando-a até se convencer de que conseguia derretê-la.
– O que tem, mãe? O que ficou a pensar?
A mulher veio para junto da rapariga, deixou-se cair em cima da cama, e com a voz a desvanecer-se disse:
– Nunca te ouvi uma palavra tão grande. Que “metáforas” te disse?
– Disse-me… Disse-me que o meu sorriso se estende como uma mariposa no meu rosto.
– E que mais?
– Bem, quando disse isto eu ri-me.
– E então?
– Então ele disse uma coisa do meu riso. Disse que o meu riso era uma rosa, uma lança que se desembainha, uma água que estoira. Disse que o meu riso era uma repentina onda de prata.
A mulher humedeceu os lábios com a língua trémula.
– E então o que fizeste?
– Fiquei calada.
– E ele?
– O que mais me disse?
– Não, filhinha. O que mais te fez! Porque o seu carteiro além de boca há-de ter mãos.
– Nunca me tocou. Disse que estava feliz de estar deitado junto de uma jovem pura, como à beira de um oceano branco.
– E tu?
– Eu fiquei calada a pensar.
– E ele?
– Disse-me que gostava de mim quando ficava calada, porque estava como que ausente.
– E tu?
– Eu olhei para ele.
– E ele?
– Ele olhou também para mim. E depois deixou de olhar-me nos olhos e ficou muito tempo a olhar para o meu cabelo, sem dizer nada, como se estivesse a pensar. E então disse-me “falta-me tempo para celebrar os teus cabelos, um por um devo contá-los e louvá-los”.
A mãe pôs-se de pé e cruzou diante do peito as palmas das mãos, horizontais como as lâminas de uma guilhotina.
– Filhinha, não me conte mais nada. estamos perante um caso muito perigoso. Todos os homens que primeiro tocam com a palavra, chegam depois mais longe com as mãos.
– Que mal têm as palavras! – disse Beatriz abraçando-se à almofada.
– Não há pior droga que o blá-blá. Faz uma taberneira de aldeia sentir-se como uma princesa veneziana. E depois, quando chega a hora da verdade, o regresso à realidade, reparas que as palavras são um cheque sem cobertura. Prefiro mil vezes que um bêbedo te apalpe o cu no bar, a que te digam que o teu sorriso voa mais alto que uma mariposa!
– Estende-se como uma mariposa! – saltou Beatriz.
– Que voe ou que se estenda vem a dar o mesmo! E sabes porquê? Porque por trás das palavras não há nada. São fogos de artifício que se desfazem no ar.
– As palavras que me disse Mario não se desfizeram no ar. Sei-as de cor e gosto de pensar nelas quando trabalho. (...)
- Primeiro, nota-se à légua que as coisas que te disse foi copiá-las a Neruda.
- Não, mãe! Ele olhava para mim e as palavras saíam-lhe como pássaros da boca.
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Antonio Skármeta
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Podemos concluir que, no senso comum, a infância não foi inventada para todas as crianças.
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Eliane Brum (Brasil, construtor de ruínas: Um olhar sobre o Brasil, de Lula a Bolsonaro (Portuguese Edition))
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Fiquei a olhar durante algum tempo para a cabra e para os amantes absortos, e depois fui até ao cais, onde um velho marinheiro idiota, de barba branca, estava sentado com os pés dentro de água. O seu olhar fixo num Argos distante era o de um homem que esperava avistar o velo de ouro.
Na sua solidão, no seu sonho de amor ou de ausência de amor, os que se perdem vão sempre ter à beira de água. Na imensa deriva da noite, o estertor da agonia dos aflitos é abafado pelo rumor da mais pequena ondulação. O espírito, vazio de tudo, excepto do rumor das ondas, serena. Rolando com as águas, a alma até então atormentada desdobra as asas.
As águas da terra! Que nivelam, sustentam, reconfortam! Águas baptismais! A seguir à luz, são elas o elemento mais misterioso da criação.
Tudo passa com o tempo. As águas ficam.
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Henry Miller
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Pedro da Maia amava! Era um amor à Romeu, vindo de repente numa troca de olhares fatal e deslumbradora, uma dessas paixões que assaltam uma existência, a assolam como um furacão, arrancando a vontade, a razão, os respeitos humanos e empurrando-os de roldão aos abismos.
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Eça de Queirós (Os Maias)
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- Bebo, devagar, até à claridade, isto é, escrevo a solidão sobrevivente, e tenho vergonha destas palavras, quero dizer, se não tivesse bebido, elas não estariam escritas assim, ei-las no céu limpo do isolamento.
Só há um lugar para a solidão de cada um. O meu é esta casa, este esconso, estas águas-furtadas, este sótão, este último andar, de onde vejo o que me cega. De aqui, espreito, pela porta entreaberta, minha irmã Francelina. Fui e sou um olhar através de uma frincha. Tinha e tenho um olhar separado de mim, coisa estrangeira. Bebo, a esta hora. Perco-me e não me perco. E grito do sítio de me perder para o sítio de não me encontrar: o álcool não me traz felicidade, traz-me um olhar separado. E digo cheia de angústia: minha mãe, minha mãe. E acrescento: por que me abandonaste? Mas sei lá quem foi minha mãe. Por mais que tente, minha mãe é só uma voz que me diz: está quieta. Nada mais lembro, nada mais há para lembrar.
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Rui Nunes (Grito)
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Olhar para o shopping através dos olhos da adoração e da liturgia, prestando atenção às práticas materiais concretas que fazem parte dessa experiência, nos dá acesso a um ângulo tal dessa instituição cultural que nos permite ver que o shopping tem sua própria pedagogia, um interesse pela educação do desejo.
Portanto, podemos ver imediatamente que o shopping é uma instituição religiosa porque é uma instituição litúrgica, e que também é uma instituição pedagógica porque é uma instituição de formação.
A pedagogia do shopping não se introduz primeiro na cabeça, por assim dizer; seu objetivo é o coração, nossas entranhas, nosso kardia. É uma pedagogia do desejo que toma conta de nós por meio do corpo. O que seria preciso, portanto, para resistir à formação sedutora do nosso desejo — e, portanto, da nossa identidade — pelo mercado e pelo shopping? Se o shopping e suas extensões “pareclesiásticas”, a televisão e a publicidade, oferecem uma liturgia diária para a formação do coração, quais seriam as contramedidas da igreja? E se a igreja adotar, acidentalmente, as mesmas práticas litúrgicas que o mercado e o shopping? Ela será, de fato, um local de contraformação? Como deveriam ser as práticas da igreja para que ela nos forme de modo que sejamos o tipo de pessoa que quer algo totalmente diferente — que deseja o reino? Qual seria a forma de uma pedagogia alternativa do desejo?
Em Desejando o reino: Culto, cosmovisão e formação cultural
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James K.A. Smith
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Não havia lugar de destaque que não ostentasse aquele rosto de bigode negro a olhar para baixo. Na fachada da casa logo do outro lado da rua, via-se um deles. "O grande irmão está de olho em você", dizia o letreiro, enquanto os olhos escuros pareciam perfurar os de Winston.
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George Orwell (1984)
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CXXVII FORMALIDADE
Grande cousa é haver recebido do céu uma partícula da sabedoria, o dom de achar as relações das cousas, a faculdade de as comparar e o talento de concluir! Eu tive essa distinção psíquica; eu a agradeço ainda agora do fundo do meu sepulcro. De fato, o homem vulgar que ouvisse a última palavra do Damasceno não se lembraria dela, quando, tempos depois,
houvesse de olhar para uma gravura representando seis damas
turcas. Pois eu lembrei-me. Eram seis damas de Constantinopla - modernas, em trajos de rua, cara tapada, não com um
espesso pano que as cobrisse deveras, mas com um véu tenuíssimo, que simulava descobrir somente os olhos, e na realidade
descobria a cara inteira. E eu achei graça a essa esperteza da
faceirice muçulmana, que assim esconde o rosto - e cumpre
o uso, mas não o esconde - e divulga a beleza. Aparente-
mente, nada há entre as damas turcas e o Damasceno; mas se
tu és um espírito profundo e penetrante (e duvido muito que
me negues isso), compreenderás que, tanto num como noutro
caso, surge aí a orelha de uma rígida e meiga companheira do
homem social...
Amável Formalidade, tu és, sim, o bordão da vida, o bálsamo dos corações, a medianeira entre os homens, o vínculo da terra e do céu; tu enxugas as lágrimas de um pai, tu captas a indulgência de um Profeta. Se a dor adormece, e a consciência se acomoda, a quem, senão a ti, devem esse imenso benefício? A estima que passa de chapéu na cabeça não diz nada à alma; mas a indiferença que corteja deixa-lhe uma deleitosa impressão. A razão é que, ao contrário de uma velha fórmula absurda, não é a letra que mata; a letra dá vida; o espírito é que é objeto de controvérsia, de dúvida, de interpretação e conseguintemente de luta e de morte. Vive tu, amável Formalidade, para sossego do Damasceno e glória de Muhammed.
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Machado de Assis (Memórias póstumas de Brás Cubas)
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CXXVII FORMALIDADE
Grande cousa é haver recebido do céu uma partícula da sabedoria, o dom de achar as relações das cousas, a faculdade de as comparar e o talento de concluir! Eu tive essa distinção psíquica; eu a agradeço ainda agora do fundo do meu sepulcro.
De fato, o homem vulgar que ouvisse a última palavra do Damasceno não se lembraria dela, quando, tempos depois, houvesse de olhar para uma gravura representando seis damas turcas. Pois eu lembrei-me. Eram seis damas de Constantinopla - modernas, em trajos de rua, cara tapada, não com um espesso pano que as cobrisse deveras, mas com um véu tenuíssimo, que simulava descobrir somente os olhos, e na realidade descobria a cara inteira. E eu achei graça a essa esperteza da faceirice muçulmana, que assim esconde o rosto - e cumpre o uso, mas não o esconde - e divulga a beleza. Aparentemente, nada há entre as damas turcas e o Damasceno; mas se
tu és um espírito profundo e penetrante (e duvido muito que me negues isso), compreenderás que, tanto num como noutro caso, surge aí a orelha de uma rígida e meiga companheira do homem social...
Amável Formalidade, tu és, sim, o bordão da vida, o bálsamo dos corações, a medianeira entre os homens, o vínculo da terra e do céu; tu enxugas as lágrimas de um pai, tu captas a indulgência de um Profeta. Se a dor adormece, e a consciência se acomoda, a quem, senão a ti, devem esse imenso benefício? A estima que passa de chapéu na cabeça não diz nada à alma; mas a indiferença que corteja deixa-lhe uma deleitosa impressão. A razão é que, ao contrário de uma velha fórmula absurda, não é a letra que mata; a letra dá vida; o espírito é que é objeto de controvérsia, de dúvida, de interpretação e conseguintemente de luta e de morte. Vive tu, amável Formalidade, para sossego do Damasceno e glória de Muhammed.
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Machado de Assis (Memórias póstumas de Brás Cubas)
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Um olhar dessa garota e qualquer homem estaria de joelhos.
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H. D. Carlton, Haunting Adeline
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e o amor? O que é senão um monte de gostar? Gostar de falar, gostar de tocar, gostar de cheirar, gostar de ouvir, gostar de olhar. Gostar de se abandonar no outro. O amor não passa de um gostar de muitos verbos ao mesmo tempo. No
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Carla Madeira (Tudo é Rio)
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O riso une os homens desinteressadamente entre si, e entre si as mulheres, e o que estabelece entre mulheres e homens pode ser um vínculo ainda mais forte e retesado, uma união mais profunda, complexa e mais perigosa por mais duradoura ou com maior aspiração de durabilidade. O duradouro desinteressado acaba por se rarefazer, às vezes por se tornar feio e difícil de tolerar, alguém tem de estar em dívida a longo prazo e só assim as coisas marcham, um ou outro um pouco mais, e a entrega e a abnegação e o mérito podem ser um caminho seguro para tomar posse do lugar do credor. Assim me ri com Luisa em oportunidades sem fim, breve e inesperadamente, vendo a graça os dois no mesmo sem acordo prévio, os dois brevemente ao mesmo tempo. Também com outras mulheres, a primeira a minha irmã; e umas poucas mais. A qualidade desse riso, a sua espontaneidade (a sua simultaneidade com o meu, talvez), fizeram-me saber e aproximar-me ou então descartar de imediato, e algumas mulheres vi-as aí na sua totalidade antes de as conhecer, quase sem falar, sem ser olhado e quase sem olhar. Uma leve dilação, em contrapartida, ou a suspeita de mimetismo, de complacente res- posta ao meu estímulo ou à minha indicação, a percepção de um riso educado ou oferecido para lisonjear, o que não é de todo desinteressado e é acicatado pela vontade, o que não tanto ri como quer rir ou se presta ou anseia ou ainda condescende em rir, desse afastei-me muito depressa ou atribuí-lhe um lugar secundário, só de acompanhamento, ou até de cortejo em épocas minhas de debilidade. Ao passo que a esse outro riso, ao de Luisa, ao que se adianta quase, ao da minha irmã, ao que nos envolve, ao da jovem Pérez Nuix, ao que se confunde com o nosso próprio e nada tem de deliberação mas de esquecimento de nós dois (mas em contrapartida todo de desprendimento e gratuitidade e de nivelamento), a esse dei-lhe habitualmente um lugar principal que depois se revelou ser duradouro ou não, perigoso às vezes, e a longo prazo (quando o houve longo) difícil de tolerar sem que aparecesse ou se interpusesse uma pequena dívida simbólica ou real. Mas suportam-se ainda menos a ausência ou a diminuição desse riso, e isso por sua vez trá-lo sempre, um ou o outro, no dia em que calha endividar-se um pouco mais, um dos dois um pouco mais. (...) quando alguém no-lo retira é sinal de que não há mais nada a fazer. Esse riso desarma. Desarma com as mulheres, e de modo diferente com os homens também. Desejei mulheres tão-somente por causa do seu riso, intensamente, habitualmente elas viram-no. E às vezes soube quem era alguém só por o ouvir ou por nunca o ouvir, o riso inesperado e breve, e até o que ia acontecer ou haver entre esse alguém e eu, se amizade ou conflito ou aborrecimento ou nada, não me enganei muito, pode ter tardado mas acabou por acontecer, e aliás está-se sempre a tempo enquanto não se morra ou não morramos esse alguém nem eu.
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Javier Marías (Tu rostro mañana)
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(...) conformarmo-nos com a aparência de uma vitória dialéctica nas nossas discussões ou de um êxito ao explicarmo-nos. «E que mais», dizia-nos depois de termos dado por concluídos, exaustos, uma exposição ou um argumento. E se lhe respondíamos «Mais nada. Já está. Achas pouco?», ele respondia, para nosso momentâneo desconcerto: «Sim, não fizeste mais que começar. Continua. Vamos, corre, apressa-te, continua a pensar. Pensar uma só coisa, divisá-la, é algo, mas também não é praticamente nada uma vez assimilada: é ter chegado ao elementar, o que, verdade seja, nem sequer a maioria atinge. Mas o interessante e difícil, o que pode valer a pena e o que mais custa, é continuar: continuar a pensar e continuar a olhar para além do necessário, quando a pessoa tem a sensação de que já não há mais que pensar nem nada mais que olhar, que a sequência está completa e que prosseguir é perder tempo. O importante está sempre ali, no tempo perdido, no gratuito e no que parece supérfluo, além da fronteira em que a pessoa se sente conforme, ou então se fatiga e se rende, amiúde sem o reconhecer. Ali onde a pessoa diria que já não pode haver nada. Portanto, diz-me que mais, que mais te ocorre e que mais argumentas, que mais ofereces e que mais tens. Continua a pensar, corre, não pares, vamos, continua.»
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Javier Marías
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Curto, Mas Alegre
Fiquei prostrado. E contudo era eu, nesse tempo, um fiel compêndio de trivialidade e presunção. Jamais o problema da vida e da morte me oprimira o cérebro; nunca até esse dia em debruçara sobre o abismo do inexplicável; faltava-me o essencial, que é o estímulo, a vertigem...
(...) Não digo que a Universidade me não tivesse ensinado alguma (filosofia); mas eu decorei-lhe só as fórmulas, o vocabulário, o esqueleto. Tratei-a como tratei o latim; embolsei três versos de Virgílio, dous de Horácio, uma dúzia de locuções morais e políticas, para as despesas da conversação. Tratei-os como tratei a história e a jurisprudência. Colhi de todas as cousas a fraseologia, a casca, a ornamentação...
Talvez espante ao leitor a franqueza com que lhe exponho e realço a minha mediocridade; advirta que a franqueza é a primeira virtude de um defunto. Na vida, o olhar da opinião, o contraste dos interesses, a luta das cobiças obrigam a gente a calar os trapos velhos, a disfarçar os rasgões e os remendos, a não estender ao mundo as revelações que faz à consciência; e o melhor da obrigação é quando, à força de embaçar os outros, embaça-se um homem a si mesmo, porque em tal caso poupa-se o vexame, que é uma sensação penosa, e a hipocrisia, que é um vício hediondo. Mas, na morte, que diferença! Que desabafo! Que liberdade! Como a gente pode sacudir fora a capa, deitar ao fosso as lantejoulas, despregar-se, despintar-se, desafeitar-se, confessar lisamente o que foi e o que deixou de ser! Porque, em suma, já não há vizinhos, nem amigos, nem inimigos, nem conhecidos, nem estranhos; não há plateia. O olhar da opinião, esse olhar agudo e judicial, perde a virtude, logo que pisamos o território da morte; não digo que ele se não estenda para cá, e nos não examine e julgue; mas a nós é que não se dá do exame nem do julgamento. Senhores vivos, não há nada tão incomensurável como o desdém dos finados.
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Machado de Assis (Memórias póstumas de Brás Cubas)
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Curto, Mas Alegre
Fiquei prostrado. E contudo era eu, nesse tempo, um fiel compêndio de trivialidade e presunção. Jamais o problema da vida e da morte me oprimira o cérebro; nunca até esse dia me debruçara sobre o abismo do inexplicável; faltava-me o essencial, que é o estímulo, a vertigem...
(...) Não digo que a Universidade me não tivesse ensinado alguma (filosofia); mas eu decorei-lhe só as fórmulas, o vocabulário, o esqueleto. Tratei-a como tratei o latim; embolsei três versos de Virgílio, dous de Horácio, uma dúzia de locuções morais e políticas, para as despesas da conversação. Tratei-os como tratei a história e a jurisprudência. Colhi de todas as cousas a fraseologia, a casca, a ornamentação...
Talvez espante ao leitor a franqueza com que lhe exponho e realço a minha mediocridade; advirta que a franqueza é a primeira virtude de um defunto. Na vida, o olhar da opinião, o contraste dos interesses, a luta das cobiças obrigam a gente a calar os trapos velhos, a disfarçar os rasgões e os remendos, a não estender ao mundo as revelações que faz à consciência; e o melhor da obrigação é quando, à força de embaçar os outros, embaça-se um homem a si mesmo, porque em tal caso poupa-se o vexame, que é uma sensação penosa, e a hipocrisia, que é um vício hediondo. Mas, na morte, que diferença! Que desabafo! Que liberdade! Como a gente pode sacudir fora a capa, deitar ao fosso as lantejoulas, despregar-se, despintar-se, desafeitar-se, confessar lisamente o que foi e o que deixou de ser! Porque, em suma, já não há vizinhos, nem amigos, nem inimigos, nem conhecidos, nem estranhos; não há plateia. O olhar da opinião, esse olhar agudo e judicial, perde a virtude, logo que pisamos o território da morte; não digo que ele se não estenda para cá, e nos não examine e julgue; mas a nós é que não se dá do exame nem do julgamento. Senhores vivos, não há nada tão incomensurável como o desdém dos finados.
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Machado de Assis (Memórias póstumas de Brás Cubas)
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Otto faz isso comigo. Coisas tão corriqueiras como vê-lo sem óculos fitando o armário, ou sua ligação com Ernesto e a fábula do tambor, ou, hoje, ele lá em cima do telhado, provocam em mim uma estranheza como se, ao focar um fragmento, eu pudesse acessar outra totalidade. E aí a familiaridade com ele se desfaz. É o oposto do que acontece com as outras pessoas daqui: no nosso trato cotidiano, quando acesso uma faceta que ainda não conhecia de alguém, sinto que isso aprofunda a intimidade, algo se acrescenta, mas no caso de Otto é subtração, e ele reaparece como um desconhecido.
Ele percebeu que eu o olhava. A gente sabe, até de costas, quando tem alguém nos observando, e os meus desvios rápidos do olhar, esse reflexo que só piora tudo, devem ter reforçado a sua percepção de que, sim, eu media cada gesto seu, cada expressão. O que será que ele deve ter imaginado? O que pensar quando uma pessoa que mora com você (e não só mora, mas também trabalha, estuda, festeja, discute, conhece o som dos seus passos, dos espirros, do bater da porta, divide o banheiro, o cuidado com a criança, com as heranças) começa, do nada, a te olhar descaradamente?
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Carla Piazzi (Luminol)
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A dor a gente sabe o que é, tem lugar e intensidade que cabem na ciência. A raiva, o medo, o ódio entortam a cara com um jeito provável de se manifestar. Mas e o amor? O que é senão um monte de gostar? Gostar de falar, gostar de tocar, gostar de cheirar, gostar de ouvir, gostar de olhar. Gostar de se abandonar no outro. O amor não passa de um gostar de muitos verbos ao mesmo tempo.
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Carla Madeira (Tudo é Rio)
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Definitivamente, fazia uma eternidade que eu não me sentia assim com alguém. Não resisto à minha vontade de agarrá-lo e prendê-lo a mim, quero me embolar nele. — Você é meu — grunhi, enlaçando seu quadril com as pernas e levando o olhar para ele. Seus olhos redondinhos e escuros viram duas curvinhas quando sorri, e isso derrete meu coração. — Eu sou. — É meu — repito, segurando seu rosto em minhas mãos e distribuindo beijos por cada cantinho, e me contendo para não morder. Minha linguagem de amor é nada mais do que uma explosão de carinho, e eu posso passar horas inteiras grudado nele, dizendo o quanto ele é lindo e perfeito. Não sei amar de outra forma que não seja essa — Meu Ethan. Tenho a plena noção de que pareço e soo como um maluco obcecado, não que eu esteja muito distante disso, no entanto, ele é meu e de mais ninguém.
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GABBIE OLIVEIRA (NOSTALGIA (Volume 1) (Portuguese Edition))
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Você já sentiu que está andando sem rumo e de repente uma chuva quente o faz lembrar do caminho? Isso me acontece com a música, e eu acho - desculpe-me por ser tão ousado - que é a mesma coisa que acontece a você com a noite boêmia, com a fantasia do cabaré.
Eu acho que os jovens saem de noite para fugirem da gaiola de suas casas e ganharem asas. Mas eu não sou um jovem qualquer, não. Sou o exagero feito de carne.
Eu sou mesmo exagerado. Eu só quero brilhar como um vaga-lume que ilumina com o olhar.
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Andrea Alejandro Freire (Camino de letras que desaparece en un sobre)
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Não seja rigoroso nos controles, dê tempo ao tempo. Ao olhar para um problema, use também a intuição. Espere o momento certo para agir. Não seja rigoroso com você mesmo. Reconheça seus sentimentos e as necessidades do seu corpo. Permita-se chorar, dormir, descansar e recuperar-se.
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Marcelo Pimenta (Economia da Paixão: Como ganhar dinheiro e viver mais e melhor fazendo o que ama (Portuguese Edition))
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Passar quatro dias e quatro noites em casa, vendo o carnaval passar; ou não vendo nem isso, mas entregue a uma outra e cifrada folia, que nesta quarta-feira de cinzas abre suas pétalas de cansaço, como se também tivéssemos pulado e berrado no clube. Não ligar a televisão, esquecer-se do rádio; deixar os locutores falando sozinhos, na ânsia de encher de discurso uma festa à base de movimento e de canto. Perceber apenas o grito trêmulo, trazido e levado pelo vento, de um samba que marca realidade lúdica sem nos convidar à integração. Beneficiar-se com a ausência de jornais, que prova a inexistência provisória do mundo como arquitetura de notícias. Ter como companheiro o irmão gato Crispim, exemplo de abstenção sem sacrifício, manual de silêncio e sabedoria, aventureiro que experimentou a vertigem da luta-livre nos telhados e homologa a invenção da poltrona. Penetrar no vazio do tempo sem obrigações, como num parque fechado, aproveitando a ausência de guardas, e descobrindo nele tudo que as tabuletas omitem. Aceitar a solidão; escolhê-la; desfrutá-la. Sorrir dos psiquiatras que falam em alienação do mundo e recomendam a terapêutica de grupo. Estimar a pausa como valor musical, o intervalo, o hiato. O instante em que a agulha fere o disco sem despertar ainda qualquer som. Andar de um quarto para outro sem ser à procura de objetos: achando-os. Descobrir, sem mescalina, as cores que a cor esconde; os timbres entrelaçados no ruído. Olhar para as paredes, ou melhor, olhar as paredes em torno dos quadros. Sentir a casa como um todo e como partículas densas, tensas, expectantes, acostumadas a viver sem nós, à nossa revelia, contra o nosso desdém. Habitar realmente a casa, quatro dias: como ilha, fortaleza, continente; infinito no finito; reconsiderar os livros, arrumá-los primeiro com método, depois com voluptuosidade, fazendo com que cada prateleira exija o maior tempo possível; verificar que antes é preciso tirar a poeira de um, remover a boba capa de celofane que envolve a encadernação de outro. Reler dedicatórias, abrir ao acaso livros de poetas que preferimos e que infelizmente não são os mais modernos, nem os mais célebres; copiar meia estrofe por onde corre arrepio verbal; separar volumes que não nos falam mais nada e que devem tentar seu destino em outras casas. Sentir chegada a hora dos álbuns de pintura com pouco ou nenhum texto, e dos volumes iconográficos que nos contam Paris ou a vida de Mallarmé. Viajar em fotografias; sentir-se imagem flutuando entre imagens; a terra domesticada em figura, tornada familiar sem perda de sua essência enigmática. Reconhecer que muitos livros comprados a duras penas, pedidos ao estrangeiro ou longamente minerados nos sebos, não têm mais do que essa oportunidade de comunicação durante o ano; deixar que fiquem a sós conosco e nos confiem seu segredo. Admitir a fome, sem exigência de horário, e matá-la com o que houver à mão; renunciar à idéia de almoço e jantar, com reverência ao sagrado direito que assiste a todos, inclusive e principalmente às cozinheiras, de brincarem o seu carnaval; achar mais gosto nessa comida, porque não é regulamentar nem é seguida de nada: todas as obrigações estão suspensas, e só valem as que soubermos traçar a nós mesmos. Descortinar na preguiça um espaço incomensurável, onde cabe tudo; não enchê-lo demais; devassá-lo à maneira de um explorador que não quer ser muito rico e tanto sente prazer em descobrir como em procurar. Assim vosso cronista passou o carnaval: sem fugir, sem brincar, divertido em seu canto umbroso.
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Carlos Drummond de Andrade (A Bolsa e a Vida)
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- Eu sou um barqueiro - começou. Estava a olhar para as mãos, mas lançou-lhe um rápido olhar de relance. A expressão dela era meramente curiosa. Respirou fundo e continuou - Guio as almas através das terras perdidas e protejo-as dos demónios. Revelo-lhes a verdade, e depois deixo-as aonde elas têm de ir.
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Claire McFall (Ferryman (Ferryman, #1))
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Uma família passeia em meio a folhas caídas no outono. O pai pega o filho de 5 anos no colo e o menino o enche de beijos. A mãe os observa com um sorriso. Se tirarmos um momento para olhar em volta, veremos que estamos cercados de momentos adoráveis.
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Haemin Sunim (The Things You Can See Only When You Slow Down)
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quando discutimos sustentabilidade, é necessário, sim, olhar para o consumo, principalmente o consumismo como ideologia dominante e o padrão de consumo de países abastados, que se baseia numa noção de qualidade de vida que mais se preocupa com a quantidade de coisas que alguém deve ter do que com a qualidade do tempo com a família e o acesso pleno à saúde.7 Isso exige pautar outra visão sobre o que de fato é, ou pode ser, uma vida abundante. Como são vários padrões de consumo diferentes distribuídos de forma desigual ao redor do mundo, não adianta fazer uma abordagem simplesmente focada no consumo. É necessário mexer na produção, em especial no sistema econômico que alimenta um ciclo de produção infinita, para consumo infinito, para acumulação infinita por parte dos donos dos meios de produção. Isso significa que, enquanto alteramos formas de consumir, a produção segue em parte como antes e em parte se adapta a novas demandas de mercado. A produção como um todo não passa a ser sustentável com essa mudança na demanda, mas cria um nicho de produção “verde” desde que seja, na maioria, atrelada a lucro. A contradição do sistema é mantida e, se a contradição sistêmica persevera, não há como fugir, individualmente, da contradição formal e simbólica de ser contra a ordem vigente enquanto ela vigora.
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Sabrina Fernandes (Se quiser mudar o mundo: Um guia político para quem se importa)
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– Ontem à noite – começou Ventarrón –, saí para dar uma volta, depois que você dormiu, e vi uma luz por aí, e me aproximei para olhar. Naquele lugar existe um hotel, no alto de uma pequena montanha, e num primeiro momento acreditei que tinha se incendiado, de tanto brilho. Mas não havia fogo algum. Desci e me aproximei das janelas. Também não era uma festa. Era uma luz radioativa, que pulsava, e pulsava tanto que sacudia todo o hotel… Uma luz vermelha, horrível, e a temperatura tinha subido vários milhares de graus… Como não tinha nenhuma intenção de me transformar num vento atômico, me afastei e fiquei olhando. Aquilo ia de mal a pior. Eu mesmo comecei a ficar assustado. E olhe que sou o mais eficaz que há numa fuga. Mas sei que existem sustos a distância dos quais não vale a escapatória. E então, de repente, o hotel inteiro caiu, derretido como um floco de neve ao sol. E lá estava, livre, aceso e horrível, o Monstro… o menino que não deveria ter nascido.
Sua voz, que já era grave, tinha adquirido uma ressonância de além-túmulo, muito pessimista. Suas últimas palavras fizeram um arrepio correr pelas costas de Delia.
– Que menino…? Que monstro…?
– Existe uma lenda que diz que um dia vai nascer, num hotel termal da zona, um menino dotado de todo o poder das transformações, um ser que será a cápsula de todos os ventos do mundo, o molde do vento, e, portanto, feio de espantar… pelo menos para mim, e para você, porque o que em mim está do lado de fora, nele está do lado de dentro, impulsionando todas as deformações. Já percebe que isso que eu estava vendo me dizia respeito.
– E o que aconteceu?
– Nada. Saí correndo e aqui estou. O problema é que agora o Monstro está solto e à sua procura.
– Eu? Por que eu?
– Porque assim diz a lenda – respondeu o vento, críptico. – E é óbvio que a lenda se transformou em realidade.
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César Aira (Cómo me hice monja / La costurera y el viento)
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silêncio pesado instalou-se entre os dois. Ambos tinham responsabilidades no desequilíbrio de Sofia. Ele tomou as mãos dela entre as dele e falou, sério: – Eu sei que você pode vencer suas limitações e dificuldades. Você é capaz, é inteligente, é forte. Se conseguir canalizar seu potencial no lugar certo, vai superar. Fixando o olhar na face meiga de Lorenzo, Sofia balbuciou: – Será mesmo que consigo? – Podemos desenhar uma nova encarnação juntos. Eu serei seu marido. Vou me dedicar a você, vou ajudá-la. Deixe-me reparar meus erros, ajudando você a reparar os seus. Não falharei com você, eu prometo. Agora os olhos de Lorenzo estavam marejados. A voz era embargada, e as mãos tremiam. E ele continuou: – Sei que falhei com você e sou culpado também pelo que você fez. Vamos reparar juntos tudo isso. – Como poderei confiar em você? – Vamos planejar muito bem nossa próxima encarnação, de modo a não nos dar muito espaço para fugir do crescimento. Trabalharemos por algo maior e mais forte do que nós. Teremos um ideal elevado e traçaremos estratégias que nos limitem, nos dificultem de colocarmos nossos monstros para fora. Nós os dominaremos. Ficaremos juntos, parceiros mesmo, para todas as dificuldades. Eu vou aprender a amá-la e cuidarei de você todos os dias da minha vida. Ele beijou as mãos dela e enxugou as lágrimas que desciam pela face alva de Sofia.
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Sandra Carneiro (Todas as flores que eu ganhei (Portuguese Edition))
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O amor tem nome, mas não é nada que a gente possa reconhecer só de olhar. [...]. Mas e o amor? O que é senão um monte de gostar? Gostar de falar, gostar de tocar, gostar de cheirar, gostar de ouvir, gostar de olhar. Gostar de se abandonar no outro. O amor não passa de um gostar de muitos verbos ao mesmo tempo.
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Carla Madeira (Tudo é Rio)
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o Bolsonarismo muitas vezes usa a religião para justificar suas posições políticas e morais; ou seja, é o oposto do que parece em um olhar superficial, a religião foi instrumentalizada para eleger e manter políticos no poder, em nome de Jesus.
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Jorge Guerra Pires (Ciência para não cientistas: como ser mais racional em um mundo cada vez mais irracional, vol. 1 (Bolsonarismo) (Inteligência Artificial, Democracia, e Pensamento Crítico) (Portuguese Edition))
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De Portugal enquanto realidade presente não espera Pessoa nada. Do Portugal como nauta de si mesmo, como história-profecia de que Mensagem interroga os anúncios e signos sucessivos, tudo. Sem poder e sem renome, como no seu texto se proclama, Portugal não pode ser outra coisa senão teatro de uma epopeia da alma de uma «ulisseia» espiritual, invenção de um Ocidente futuro para o qual Portugal-Esfinge parece olhar, de costas voltadas a uma Europa há muito entregue aos demónios da vontade de poderio.
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Eduardo Lourenço (O Labirinto da Saudade: Psicanálise Mítica do Destino Português)
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Reclinada contra o sofá altivo em provocadora pose a burguesa ao estrangeiro ruivo sentado à mesa lança um lânguido olhar convidativo. Em assentir o marido disposto ligeiramente com mão corajosa o vestido nu pela coxa ansiosa faz deslizar. E ao jogo achando gosto do austero casal com a impudicícia, pondo-se em pé num salto de guerreiro, vira a perversa, e sem uma carícia, manejando-a como um troféu de glória, o estrangeiro desnuda-lhe o traseiro e arremete c’um grito de vitória.
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Geraldo Paiva (O êxtase da perversidade: o pequeno livro vermelho do erotismo (Vozes que a noite sepultou 1) (Portuguese Edition))
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Como então impor a paz? Não pela razão, com certeza, nem pela educação. Se um homem não conseguia olhar para a paz e para a guerra e escolher o primeiro em detrimento do segundo, que outro argumento poderia persuadi-lo? O que poderia ser mais eloquente como condenação da guerra do que a própria guerra? [...] Então, para acabar com o mau uso da força, só restava uma única solução: a própria força.
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Isaac Asimov
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As pessoas veem um bife e sabem que vem de uma vaca, mas sabem-no apenas como uma simples informação abstrata que consta dos livros, pois nunca viram sequer uma vaca ser morta. Nem querem ver. Sabem, mas não querem saber. Sabem que os matadouros existem, mas não sabem o que se passa lá dentro. Não sabem porque os matadouros foram concebidos para não serem vistos, é certo, mas também porque as próprias pessoas fazem questão de não os ver nem saber o que se passa lá dentro. Mesmo que as paredes dos matadouros fossem de vidro e tudo se pudesse ver, desviariam o olhar. Não querem saber. São capazes de protestar veementemente contra uma subida do preço do café, mas ficam em silêncio absoluto perante a matança de milhares de milhões de animais todos os anos nas condições mais cruéis. Não sabem, sabendo. Os matadouros estão por toda a parte e no entanto permanecem invisíveis. Os matadouros encontram-se à vista de todos, mas todos se esforçam por não os ver. Invisíveis apesar de estarem à vista.
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José Rodrigues dos Santos (O Jardim dos Animais com Alma (Tomás Noronha, #11))
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Cruzar as pernas era um acréscimo de dupla segurança para o caso do efeito pipa não ter alcançado o resultado desejado; quando uma menina se sentava de pernas cruzadas, era para evitar os olhares curiosos e intrometidos de jovens rapazes.
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Buchi Emecheta (Preço de noiva)
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A leitura infuenciara a minha vida a ponto de a fazer seguir aquele caminho totalmente inesperado. Os livros tinham-me mostrado as mil e uma formas do amor, que se tinham tornado um incentivo para olhar para mim mesma e repensar os meus sentimentos.
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Satoshi Yagisawa (More Days at the Morisaki Bookshop (Days at the Morisaki Bookshop, #2))
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Perdoar é sinal de grandeza", pensou ela. "Mas entender é muito mais difícil." Quando não se via o motivo, mas se podia compreender toda a série de evento que haviam antecedido um ato doentio, era normal sentir vertigem. Alguns chamavam de pecado original, outros de predestinação, mas na verdade era apenas uma lógica fria e antissentimental.
Uma avalanche após o grito ou os círculos formados por um pedregulho na superfície da água. Um fio esticado no escuro pode onde passava uma bicicleta, uma palavra precipitada, um tapa no calor do momento.
Às vezes era um ato deliberado e consciente, cuja consequência não passava de um parâmetro. No estado insensível em que "empatia" era apenas uma palavra de sete letras, sem significado, alguém se aproximava do mal. Quando todo sentido de humanidade era negado, o ser se torna um animal selvagem. A voz escurece, o corpo muda e o olhar perde a vida.
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Erik Axl Sund
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Vem, Noite antiquíssima e idêntica,
Noite Rainha nascida destronada,
Noite igual por dentro ao silêncio. Noite
Com as estrelas lantejoulas rápidas
No teu vestido franjado de Infinito.
Vem, vagamente,
Vem, levemente,
Vem sozinha, solene, com as mãos caídas
Ao teu lado, vem
E traz os montes longínquos para o pé das árvores próximas.
Funde num campo teu todos os campos que vejo,
Faze da montanha um bloco só do teu corpo,
Apaga-lhe todas as diferenças que de longe vejo.
Todas as estradas que a sobem,
Todas as várias árvores que a fazem verde-escuro ao longe.
Todas as casas brancas e com fumo entre as árvores,
E deixa só uma luz e outra luz e mais outra,
Na distância imprecisa e vagamente perturbadora.
Na distância subitamente impossível de percorrer.
Nossa Senhora
Das coisas impossíveis que procuramos em vão,
Dos sonhos que vêm ter connosco ao crepúsculo, à janela.
Dos propósitos que nos acariciam
Nos grandes terraços dos hotéis cosmopolitas
Ao som europeu das músicas e das vozes longe e perto.
E que doem por sabermos que nunca os realizaremos...
Vem, e embala-nos,
Vem e afaga-nos.
Beija-nos silenciosamente na fronte,
Tão levemente na fronte que não saibamos que nos beijam
Senão por uma diferença na alma.
E um vago soluço partindo melodiosamente
Do antiquíssimo de nós
Onde têm raiz todas essas árvores de maravilha
Cujos frutos são os sonhos que afagamos e amamos
Porque os sabemos fora de relação com o que há na vida.
Vem soleníssima,
Soleníssima e cheia
De uma oculta vontade de soluçar,
Talvez porque a alma é grande e a vida pequena.
E todos os gestos não saem do nosso corpo
E só alcançamos onde o nosso braço chega,
E só vemos até onde chega o nosso olhar.
Vem, dolorosa,
Mater-Dolorosa das Angústias dos Tímidos,
Turris-Eburnea das Tristezas dos Desprezados,
Mão fresca sobre a testa em febre dos humildes.
Sabor de água sobre os lábios secos dos Cansados.
Vem, lá do fundo
Do horizonte lívido,
Vem e arranca-me
Do solo de angústia e de inutilidade
Onde vicejo.
Apanha-me do meu solo, malmequer esquecido,
Folha a folha lê em mim não sei que sina
E desfolha-me para teu agrado,
Para teu agrado silencioso e fresco.
Uma folha de mim lança para o Norte,
Onde estão as cidades de Hoje que eu tanto amei;
Outra folha de mim lança para o Sul,
Onde estão os mares que os Navegadores abriram;
Outra folha minha atira ao Ocidente,
Onde arde ao rubro tudo o que talvez seja o Futuro,
Que eu sem conhecer adoro;
E a outra, as outras, o resto de mim
Atira ao Oriente,
Ao Oriente donde vem tudo, o dia e a fé,
Ao Oriente pomposo e fanático e quente,
Ao Oriente excessivo que eu nunca verei,
Ao Oriente budista, bramânico, sintoísta,
Ao Oriente que tudo o que nós não temos.
Que tudo o que nós não somos,
Ao Oriente onde — quem sabe? — Cristo talvez ainda hoje viva,
Onde Deus talvez exista realmente e mandando tudo...
Vem sobre os mares,
Sobre os mares maiores,
Sobre os mares sem horizontes precisos,
Vem e passa a mão pelo dorso da fera,
E acalma-o misteriosamente,
Ó domadora hipnótica das coisas que se agitam muito!
Vem, cuidadosa,
Vem, maternal,
Pé antepé enfermeira antiquíssima, que te sentaste
À cabeceira dos deuses das fés já perdidas,
E que viste nascer Jeová e Júpiter,
E sorriste porque tudo te é falso e inútil.
Vem, Noite silenciosa e extática,
Vem envolver na noite manto branco
O meu coração...
Serenamente como uma brisa na tarde leve,
Tranquilamente com um gesto materno afagando.
Com as estrelas luzindo nas tuas mãos
E a lua máscara misteriosa sobre a tua face.
Todos os sons soam de outra maneira
Quando tu vens.
Quando tu entras baixam todas as vozes,
Ninguém te vê entrar.
Ninguém sabe quando entraste,
Senão de repente, vendo que tudo se recolhe,
Que tudo perde as arestas e as cores,
E que no alto céu ainda claramente azul
Já crescente nítido, ou círculo branco, ou mera luz nova que vem,
A lua começa a ser real.
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Fernando Pessoa (Poemas de Álvaro de Campos (Obra Poética IV))
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- Porque tinha medo de não conseguir controlar-me. Tu não fazes ideia de como me custou não ter ido ao teu encontro nas duas últimas noites. Desejava-te tanto…- O Kaden dirigiu-me um olhar penetrante, depois desviou-o por uns segundos. - E agora sei que quero ser aquele que te ampara quando tu precisares.
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Mona Kasten (Begin Again (Again, #1))
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Bastou um olhar, apenas um olhar, para que eu perdesse o coração, o fôlego e também o raciocínio. Eu a amei desde o primeiro instante, mesmo que ainda não soubesse disso. E, sendo Sofia como é, entrou em minha vida feito uma carroça desgovernada, atropelando-me, fazendo-me entender coisas que antes eu não compreendia e me sentir tão feliz com isso que ás vezes doía. E doeu, de fato. Dilacerou-me a alma quando ela teve que partir.
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Carina Rissi (Destinado: As memórias secretas do Sr. Clarke (Perdida, #3))
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Minha avó enfrentou vinte e um anos de um sistema ditatorial. Já eu vou superar os meses (ou anos, quem sabe) ameaçados por uma doença chamada Covid-19. E, sem dúvida, daqui três décadas os desafios que minha filha enfrentará terão nomes e motivos desconhecidos. Mas, ao olhar para trás e ver as batalhas vencidas pelas mulheres da família, ela terá a certeza de que não está sozinha e de que é forte o suficiente para sair vitoriosa de qualquer batalha.
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Paola Aleksandra (Reflexos do passado (Portuguese Edition))
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Há algo a ser meditado, especialmente quando se fala sobre felicidade. E de Pope eu gosto demais de uma frase. Disse ele: 'Algumas pessoas nunca saberão tudo, porque entendem tudo muito depressa'. Isso me lembra aquilo que um dia Guimarães Rosa produziu ao dizer: 'Não convém fazer escândalo de começo, só aos poucos é que o escuro é claro'. Isso é um sinal de inteligência imensa de alguém que conseguiu observar a vida e olhar um pouco o que significa existir. Não convém fazer escândalo de começo, só aos poucos o escuro é claro…
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Mario Sergio Cortella (Felicidade: Modos de Usar)
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Quando estiveres cansado de olhar uma flor, uma criança, uma pedra, quando estiveres cansado ou distraído de ouvir um pássaro a explicar o ser, quando te não intrigar o existirem coisas e numa noite de céu limpo nenhuma estrela te dirigir a palavra, quando estiveres farto de saberes que existes e não souberes que existes, quando não reparares que nunca reparaste no azul do mar, quando estiveres farto de querer saber o que nunca saberás, se nunca o amanhecer amanheceu em ti ou já não, se nunca amaste a luz e só o que ela ilumina, se nunca nasceste por ti e não apenas pelos que te fizeram nascer, se nunca soubeste que existias mas apenas o que exististe com esse existir, quando, se –, porque temes então a morte, se já estás morto?
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Vergílio Ferreira (Pensar)
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Se, nos meses que antecederam o aparecimento da doença, alguém perguntasse a um especialista por que é que um ser humano passa inconsciente parte de cada dia, poderia ter ouvido uma resposta que circula desde pelo menos os gregos antigos: nós dormimos, diz a teoria, para esquecer. O sono, diriam os especialistas, é quando nosso cérebro vasculha as memórias do dia, desfazendo e levando embora as coisas sem importância. O que resta a Sara é o olhar suave no rosto de Akil quando ele perguntou por onde ela tinha andado, a música da voz da mãe dele, o calor suado da mão da sua irmã enquanto elas voltavam correndo para casa.
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Karen Thompson Walker (The Dreamers)
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Tomé não foi persuadido a olhar para dentro, para o seu coração, mas a avaliar provas no mundo externo. Ele, então, fez um compromisso com base em fatos relevantes, não por causa de uma ausência de fatos e certamente não contra eles.
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Nancy R. Pearcey (A Busca da Verdade)