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As dimensĂ”es do universo medieval nĂŁo sĂŁo tĂŁo facilmente percebidas, ainda hoje, quanto a sua estrutura; em meu prĂłprio tempo de vida, um cientista distinto ajudou a disseminar um erro. 14 O leitor deste livro jĂĄ deve estar sabendo que a Terra era, a julgar por padrĂ”es cĂłsmicos, um pontinho - de nenhuma magnitude significativa. E como o Somnium Scipionis nos ensinou, as estrelas eram maiores do que ela. Isidoro jĂĄ sabia no sĂ©culo VI que o Sol Ă© maior, e a Lua, menor do que a Terra. (Etymologies, III, xlvii-xl- viii); MaimĂŽnides,15 no sĂ©culo XII, sustenta que cada estrela Ă© noventa vezes maior; Roger Bacon, no sĂ©culo XIII, declara que a menor estrela Ă© "maior" do que ela. 16 Quanto Ă s estimativas da distĂąncia, contamos com a sorte de ter o testemunho de uma obra completamente popular, Lendas do Sul da Inglaterra, uma prova melhor do que qualquer produção pesquisada, em favor do Modelo, como ele existia no imaginĂĄrio de pessoas comuns. Diz-se ali que se um homem fosse capaz de viajar para o alto, numa velocidade de quarenta milhas17 e um pouco mais por dia, ele ainda assim nĂŁo conseguiria alcançar o Stellatum ("o mais alto cĂ©u que jamais se viu") em oito mil anos. 18 Esses fatos sĂŁo em si curiosidades de interesse medĂocre. Eles se tornam acessĂveis, apenas Ă medida que nos permitem penetrar mais fundo na consciĂȘncia dos nossos ancestrais, dando-nos conta de como um universo assim deve ter afetado aqueles que acreditavam nele. A receita para tal compreensĂŁo nĂŁo Ă© o estudo de livros. VocĂȘ terĂĄ de sair numa noite estrelada e caminhar por aproximadamente meia hora, tentando examinar o cĂ©u em termos da velha cosmologia. Lembre-se de que agora vocĂȘ tem um "para cima" e um "para baixo" absolutos. A Terra Ă©, de fato, o centro, o lugar mais baixo; o movimento para chegar a ela, de qualquer direção que seja, Ă© um movimento para baixo. Como homem moderno, vocĂȘ localizava as estrelas a uma grande distĂąncia. Agora terĂĄ de substituir essa distĂąncia por um tipo de distĂąncia muito especial e muito menos abstrata chamada altura; Os CĂ©us 1 103 que fala imediatamente aos nossos mĂșsculos e nervos. O Modelo Medieval Ă© vertiginoso. E o fato de que a altura das estrelas na astronomia medieval Ă© muito pequena comparada Ă s distĂąncias modernas acabarĂĄ se manifestando como nĂŁo tendo o tipo de importĂąncia que vocĂȘ supunha. Para o pensamento e a imaginação, dez milhĂ”es de milhas e um bilhĂŁo sĂŁo a mesma coisa. Ambas podem ser concebidas (isto Ă©, podemos fazer contas com ambas) e nenhuma delas pode ser imaginada; e quanto mais imaginação tivermos, melhor deverĂamos saber disso. A diferença realmente importante Ă© que o universo medieval, ao mesmo tempo que era inimaginavelmente grande, tambĂ©m era indubitavelmente finito. E um resultado inesperado disso foi o de fazer com que a pequenez da Terra fosse sentida com mais vivacidade. Em nosso Universo ela Ă© pequena, sem dĂșvida; mas as galĂĄxias e tudo o mais tambĂ©m sĂŁo - e daĂ? Mas para eles havia um padrĂŁo finito de comparação. A esfera celeste mais alta, o maggior corpo de Dante, era tĂŁo simples e finalmente o maior objeto existente. A palavra "pequeno" aplicada Ă Terra assume, entĂŁo, uma significĂąncia bem mais absoluta. Repito, pelo fato de o universo medieval ser finito, ele adquire uma forma, a forma perfeitamente esfĂ©rica, que contĂ©m em si uma diversidade ordenada. Consequentemente, olhar para fora numa noite escura com olhos modernos Ă© como olhar para o mar, que vai minguando num dia de nevoeiro; ou olhar para uma floresta virgem - infindĂĄveis ĂĄrvores sem nenhum horizonte. Vislumbrar o universo medieval altaneiro Ă© mais como visualizar um prĂ©dio bem alto. O "espaço" da astronomia moderna pode infligir terror, espanto ou um vago devaneio; as esferas celestes dos medievais nos apresentam um objeto no qual a mente pode repousar, impressionando por sua grandeza, mas satisfazendo por sua harmonia. Esse Ă© o sentido pelo qual o nosso universo Ă© romĂąntico, e o deles era clĂĄssico.
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C.S. Lewis (The Discarded Image: An Introduction to Medieval and Renaissance Literature)